Quem me acompanha há mais tempo por aqui e ou pelo canal no Youtube, já sabe do amor que nutro pela escrita da linda Inês Pedrosa, autora portuguesa que descobri em 2003 quando me deparei com maravilhoso "Fazes-me falta", seu romance de estreia no Brasil. E desde que soube do lançamento de seu último título em Portugal, fiquei em cólicas, torcendo pra que ele chegasse logo por aqui, o que só aconteceu em setembro de 2013. Comprei logo o meu, mas acabei protelando a leitura, no melhor estilo "felicidade clandestina", aguardando mais um pouco pelas surpresas e emoções que certamente sentiria ao ler mais esse romance dela.
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15 de abr. de 2014
6 de jul. de 2013
Resenha: Balzac e a costureirinha chinesa - Dai Sijie
Tive acesso às letras do Dai Sijie através do filme Balzac e a costureirinha chinesa, que ele mesmo roteirizou e que me fez suspirar com tanta poesia e amor. Adorei as locações do filme e toda a poesia colocada no amor aos livros, na amizade e no romance da tríade de amigos. Então, nada mais natural, que ter ficado felicíssima ao descobrir que o filme fora baseado no livro do próprio Dai Sijie, e que, ainda por cima, tem um certo cunho autobiográfico, já que o mesmo foi enviado para a reeducação nos campos chineses no período de 1971 à 1974, e depois, após ter ganho uma bolsa de estudos na França, é que fixou residência no país.
26 de jun. de 2013
Resenha: Norwegian Wood - Haruki Murakami
Por mais que tenhamos as convenções sociais, as idiossincrasias
pertinentes a cada um, jamais seremos uma ilha. E não há nada que aconteça ao
outro, quanto mais ele esteja próximo a nós, que não reflita em nós mesmos. E
essa questão, bem como a leitura de Norwegian Wood, do japonês Haruki Murakami,
me fez lembrar um dito de John Donne:
Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.
23 de abr. de 2013
Resenha: Acabadora - Michela Murgia
Nascimento e morte, ação e reação, acasos e destino, fé e a falta dela, tradições e crenças, e tudo isso sobre solo italiano, mais especificamente o da Sardenha, fez com que eu elevasse, e muito, as minhas expectativas acerca do Acabadora, primeiro livro da autora italiana Michela Murgia a ser editado no Brasil
A escrita de Michela é mais emotiva que poética, e flui em suas descrições detalhadas de algo que conhece tão bem, e de onde também veio, que é a região da Sardenha, sua cultura e seu povo.
No início dos anos cinquenta em Soreni , uma pequena vila fictícia na Sardenha, onde todos sabem tudo sobre todos e passam os dias fingindo não saber, a pequena Maria Listru, a última e indesejada das quatro irmãs orfãs, é adotada por Bonaria Urrai, uma viúva rica, mas sem nunca ter se casado. Maria torna-se uma "filha d'alma,
É assim que se chamam as crianças geradas duas vezes, pela pobreza de uma mulher e pela esterilidade da outra. Maria Listru era filha desse segundo parto, fruto tardio da alma de Bonaria Urrai.
Maria e Bonaria, que apesar de rica é a costureira da aldeia, vivem como mãe e filha. E nos primeiros 17 capítulos do livro vamos seguindo os passos e o crescimento da pequena Maria, que aos poucos percebe que há alguns segredos em volta da sua nova mãe, ainda mais quando ela se veste de preto para suas saídas noturnas; no entanto é notável o quanto a velha Bonaria se esforça para manter seus segredos e como a pequena Maria, espertar e curiosa, se permite ficar alheia aos acontecimentos.
Graças ao narrador onisciente, nós podemos logo perceber as características mais marcantes de Bonaria Urrai, mas é muito interessante acompanhar as dúvidas e desconfianças distantes de uma criança que vai aprendendo a confiar e amar essa segunda mãe tão inesperada e diferente da primeira, com seus carinhos retraídos, sua preocupação em educá-la bem e seus segredos.
O próprio vilarejo e seus moradores se fazem personagens do romance. Eles acompanham as histórias de todos, seus rumores e calúnias. A própria Bonaria diz que perdeu o noivo, tornando-se uma viúva de guerra; há ainda os conflitos entre donos de terra, cada um arrastando, com ou sem feitiços, suas cercas pro lado que interessam; a dificuldade em fazer as crianças aprenderem o italiano, já que só falam o dialeto sardo; as carpideiras, mulheres pagas para chorarem o morto em seus lúgubres e cantados funerais; o Luto oficial e o lamentar sobre os mortos e a tradição da portas das casas permanecem abertas na noite de 01 de novembro para receber as almas que vagam, a ânsia por vingança de Nicola Bastiú e relação de amizade entre Maria e Andrían; o despertar dos primeiros amores, e as famílias em desespero que clamam pela acabadora.
Falar sobre eutanásia hoje não é fácil, e Michela nos mostra que, mesmo em meio às suas tradições, e em 1950 também não era; e eu acredito que nunca será. É um assunto extremamente delicado que mexe com um numero x de questões que não quero discutir aqui. É por toda essa efervescência de assuntos e motes, de personagens interessantes e densos, que achei que o romance não foi tão bem trabalhado, ou que a autora tenha se permitido pudores a mais para falar de sua terra natal. Imaginei que o mote da acabadora fosse ser mais explorado, mas não, ficou tudo no âmbito do aceitável, do tocante entendimento, e uma sensação de que faltou a cereja do bolo! Pois só o cenário, uma vila católica, durante o pós guerra, já é mote suficiente pra muita entrelinha e linhas expostas.
Mas enfim, é um livro bom sim, sutil, emocionante e poético em muitas partes, mas que tinha tudo para ser ótimo e não foi ou eu é que não alcancei a profundidade necessária de suas linhas e entrelinhas!
♥♥♥
Título: Acabadora
Autora: Michela Murgia
Editora: Alfaguara
Tradução: Frederico Carotti e Denise Bottmann
Nº de páginas: 160
15 de abr. de 2013
Resenha: Primavera num espelho partido - Mario Benedetti
"Apesar de tudo, o corpo é mais adaptável do que o espírito. O corpo é o primeiro a se acostumar aos novos horários, a suas novas posturas, ao novo ritmo de suas necessidades, a seus novos cansaços, a seus novos descansos, a seu novo fazer e a seu novo não fazer."
Quando eu era criança e já conseguia perceber com um pouco mais de discernimento a realidade das coisas, eu ficava em êxtase quando minha mãe nos reunia à mesa do jantar para nos comunicar que nos mudaríamos mais uma vez e em breve, que o papai tinha sido novamente transferido e que só esperaríamos as férias chegarem, o que geralmente era coisa de uns 30 a 20 dias antes da mudança. Mas com o passar do tempo e muitas despedidas depois, esse êxtase foi se transformando, pouco a pouco, na consciência de que o adeus muitas vezes é para sempre e que ele dói tanto quanto se sentir sem raízes.
Assim que comecei a ler Primavera num espelho partido, do uruguaio Mario Benedetti, soube imediatamente que não sairia imune dele. Ainda mais depois de ler o capítulo intitulado Don Rafael (Derrota e rota).
O essencial é adaptar-se. (...)Nem todos tem um exílio próprio. A mim quiseram empurrar um alheio. tentativa inútil. Transformei-o em meu. Como foi? Isso não importa. Não é um segredo nem uma revelação. Eu diria que é preciso começar apoderando-se das ruas. Das esquinas. Do céu. Dos cafés. Do sol, e o que é mais importante, da sombra. É somente quando alguém chega a perceber que uma rua não lhe é estrangeira que a rua pára de vê-lo como um estranho. E assim com todo o resto.
E sim, durante muitos anos considerei-me uma exilada, mesmo sem saber do termo e muito menos seus significados...
Mario Benedetti, poeta, escritor e ensaísta uruguaio foi-me apresentado, como já citei aqui, pela Denise Mercedes do blog e vlog Meus Olhos Verdes, e com apenas dois livros lidos já tinha se tornado um dos meus queridos, agora posso afirmar que além de querido é um dos meus autores reconfortantes!
Em Primavera num espelho partido, romance de 1982 e lançado no Brasil somente em 2009, Benedetti nos narra uma história de saudades, exílios, amores, dramas, sonhos, separações, culpas e uma boa dose de política. É também uma história com tons autobiográficos, já que, como um dos personagens de sua ficção, o escritor também esteve, por 12 anos, exilado em outros países, entre eles Peru, Argentina, Cuba e Espanha, devido a sua posição e opiniões políticas no período da Ditadura Uruguaia.
O romance é construído a partir de seis vozes narrativas que, em pequenos capítulos, revelam, aos poucos, a história e seus personagens. Santiago, o homem culto e ativista politico, que foi preso e torturado e já está preso há mais de 4 anos. Graciela, sua mulher, também tem de exilar-se com a filha, Beatriz, e o sogro, Dom Rafael e que, para sobreviver, trabalha como secretária tentando levar adiante sua vida da melhor maneira possível. Os capítulos são apresentados em cinco perspectivas diferentes: as cartas que Santiago escreve à sua mulher da prisão. O cotidiano de Graciela e a sua labuta para criar a filha do casal. O monólogo de Dom Rafael. A perspectiva de Rolando Austero, amigo de Santiago e da família. As redações da pequena Beatriz. E os capítulos em que, sem ter relação direta com a história, narram em primeira pessoa as experiências do próprio Benedetti no exílio.
Apesar de ter formado com Santiago um casal perfeito, Garciela percebe que o tempo e a distância os afastam, e que ela, de tanto viver longe, já não precisa mais dele. Em contrapartida, no claustro é como se o tempo tivesse parado para Santiago, que cultiva o sonho de, ao sair da prisão, retomar sua vida, encontrar as pessoas, ou ao menos os sentimentos, do mesmo jeito que as deixara ao ser preso.
O título ainda carrega a força política, pois refere-se à Ode a primavera, de Pablo Neruda, poema cuja metáfora se refere à justiça social; além de uma bela justificativa poética, que veremos nas indagações de Santiago ao final do romance, e também a vemos quando Don Rafael nos fala dela, ao lembrar seu relacionamento com a esposa já falecida:
“Quando tínhamos apenas dois anos de casados, em um dos seus infreqüentes impulsos de confidência, que eram como uma concessão que nos fazia às vezes (a ela e a mim), disse que bom seria morrer ouvindo alguma das Quatro Estações, de Vivaldi. E muitos anos depois, exatamente em dezessete de junho de mil novecentos e cinqüenta e oito, quando estava lendo e de repente ficou imóvel para sempre, no rádio (não era sequer um toca-discos) estava tocando a Primavera. Santiago ficou sabendo e talvez por isso essa palavra, primavera, tenha se ligado para sempre à sua vida. É como o seu termômetro, seu padrão, sua norma”…
De todos os personagens do livro Santiago é o mais otimista e crédulo, acredita em seus sonhos e se mantém vivo e incorruptível por ele. É a personagem que mais tive vontade de colocar no colo e afagar. Se bem que sua filha, Beatriz, é o melhor contrapeso que um escritor poderia ter utilizado. Nela podemos ver a perplexidade de uma criança atenta, inteligente e que questiona, racionaliza, mesmo quando se perde e confunde com a linguagem, como no episódio que confunde "poluição" com "polução", é realmente muito bom, uma dose extra e fina de humor! E o que dizer dela quando fala de liberdade:
“Liberdade quer dizer muitas coisas. Por exemplo, se você não está presa se diz que está em liberdade. Mas meu pai está preso e no entanto está em Liberdade, pois é assim que se chama a prisão onde está há muitos anos… Meu pai é um preso, mas não porque tenha matado ou roubado ou chegado tarde à escola. Graciela diz que meu pai está em Liberdade, ou seja, preso, por suas idéias. Parece que meu pai era famoso por suas idéias. Eu também tenho idéias, às vezes, mas ainda não sou famosa. Por isso não estou em Liberdade, ou seja, não estou presa… De forma que liberdade é uma palavra enorme. Graciela diz que ser um preso político como meu pai não é nenhuma vergonha. Que é quase um orgulho. Por que quase? É orgulho ou é vergonha? Gostaria que eu dissesse que é quase vergonha? Estou orgulhosa, não quase orgulhosa, de meu pai, porque teve muitíssimas idéias, tantas e tantas que foi preso por causa delas. Acho que agora meu pai vai continuar tendo idéias, idéias espetaculares, mas é quase certo que não fale sobre elas com ninguém, porque se falar, quando sair da Liberdade para viver em liberdade, podem fechá-lo outra vez na Liberdade. Estão vendo como é enorme?”.
Não há como mensurar a dor que cada tipo de exílio pode causar, muito menos apagar as cicatrizes por eles deixadas, mas Benedetti ainda nos traz mais uma questão que é a do "desexílio", palavra inventada por ele para se referir ao processo de readaptação dos exilados ao voltar para casa. Como será o fim desse inverno, será que Santiago terá razão?
Acredito que o escritor Julián Fucks, ao falar de si mesmo, fecha com chave de ouro a questão levantada por Benedetti e também às que ainda teimam em bailar em meu coração:
…depois desses cinco anos de inverno ninguém vai me roubar a primavera…
A primavera é como um espelho mas o meu está com a ponta quebrada/era inevitável não ia sair inteirinho desse bem nutrido qüinqüênio/mas apesar da ponta quebrada o espelho serve a primavera serve…
“EU ERA UM MENINO, MEUS PAIS ESTAVAM CANSADOS DO EXÍLIO, QUERIAM RECOBRAR SEU PAÍS: TIVE QUE ME INVENTAR ARGENTINO. ME LIVREI DAS ROUPAS FESTIVAS, DA MOLEZA DA LÍNGUA, DEIXEI O CABELO MAIS COMPRIDO. NÃO ADIANTOU: PARA ELES, FUI SEMPRE UM ARGENTINO PRECÁRIO, UM BRASILEIRO ENRUSTIDO. QUANDO VOLTEI, ESTAVA FELIZ. RECUPERARIA MEU EU ANTIGO. TRISTE ILUSÃO: FUI TAMBÉM UM BRASILEIRO FALSO. ALGUÉM, TALVEZ EU MESMO, SEMPRE ME QUIS O OUTRO QUE EU JAMAIS SERIA.”
Primavera num espelo partido
Mario Benedetti
Trad.: Eliana Aguiar
Alfaguara
224 págs.
Esta resenha também faz parte do Desafio Literário 2013, cujo tema é referente ao mês de abril: Estações
do ano no título da obra.
5 de abr. de 2013
Resenha [?!]: O Sonâmbulo Amador - José Luiz Passos
“ Quem quiser, faça uma coisa. Diante do espelho, olhe nos olhos e repita duas ou três vezes aquele seu nome de infância. Jura, Jura, isto no meu caso. Vão e façam igual, qualquer coisa lá dentro se abre. Na vertigem dessa palavra vão voltar, tenho certeza, de bem longe as cenas de um tempo adormecido, o começo das coisas, momentos que passaram sem se fazer notar, com gente que não nos pedia nada em troca. Eram apenas o que eram. E não deixa de ser incrível que uma centelha disso tudo sobreviva nas meras cinzas de um mero apelido defasado…”
Sofri porque não conseguia respirar em meus mergulhos no mar de sonhos, devaneios, lembranças e realidades impregnadas de rotina do personagem Jurandir. Mas ao mesmo tempo que não respirava e me agoniava, eu não queria desistir, não queria parar...
E não parei! Entre golfadas e lufadas de ar, em agonia e prazer, consegui terminar de lê-lo... Mas vir aqui e falar dele não foi nada fácil. Não por ser um livro difícil, não é esse o caso, mesmo sendo um pouco sim pela forma narrativa, onde delinear o que é sonho, delírio e realidade é extremamente complicado, mas ao mesmo tempo, e o que eu achei a tacada de mestre do autor, foi nos fazer conhecer o Jurandir à medida que ele mesmo retornava a si e se fazia conhecer aos outros personagens.
O Sonâmbulo Amador, é narrado em primeira pessoa, e é composto por 4 cadernos e um anexo, digamos assim, que o próprio Jurandir escreve durante o tempo em que vive num sanatório, ao qual é levado depois de atear fogo ao carro da empresa, numa viagem que fazia à Recife, para tratar do caso de um rapaz que acidentou-se na tecelagem que Jurandir também trabalha.
À medida que Jurandir vai relatando em seus cadernos suas lembranças, sonhos, seu passado e presente, como recomendação do psiquiatra Dr. Ênio, acaba por fazer um balanço do seu casamento, da relação com a amante, do seu acidente na infância, o acidente no qual perdera seu único filho. E é nesse vai e vem que ele se contradiz e reinventa-se ao longo de sua narrativa.
E sim, o sonâmbulo do título permeia toda a vida de Jurandir, é a sua própria vida, não só no que tange ao fato de estar entre o sono e a vigília, mas também atado ao mecanicismo de uma vida rotineira, num verdadeiro automatismo burocrático.
José Luiz Passos se mostrou, a mim, de uma habilidade incrível em narrar histórias! Ainda mais uma recheada de tantas idas e vindas no tempo, na memória e na vida. Tudo na obra é bem pontuado, colocado em lugar no devido tempo, e o que nos afigura desde o início como confuso se revela, enfim, como pura reflexão.
♥♥♥♥♥
Autor: José Luiz Passos :::
Editora e ano: Alfaguara, 2012,
Número de páginas: 248
1 de fev. de 2013
Resenha: A Borra do Café - Mario Benedetti
Para onde vão as névoas, a borra do café, os almanaques de outros tempos?
Julio Cortázar
Mario Benedetti, que na verdade assinava Mario Orlando Hardy Hamlet Brenno Benedetti Farrugia, foi um escritor, poeta, ensaísta uruguaio, nasceu em Paso de los Toros na década de 20 e faleceu em 2009, com 88 anos, em Montevidéu. Considerado um dos principais autores uruguaios, escreveu mais de 80 livros entre poesia, romances, contos e ensaios, bem como roteiros para cinema.
Meu primeiro contato com Benedetti foi em meados de 2012 e totalmente indireto; se deu através dos vídeos da Denise Mercedes, no seu canal Meus olhos verdes. Lembro-me que ela falou com tanta emoção sobre o livro Primavera num espelho partido, que fiquei mega curiosa em conhecer a escrita desse autor, tanto que o coloquei na minha lista de autores para ler em 2013, como mostrei nesse vídeo.
Como sua obra mais vasta foi no gênero da poesia, acabei por começar a lê-lo pelo O Amor, as mulheres e a vida - Antologia de poemas de amor, que achei uma delícia e que ainda quero falar melhor sobre ele.
Mas foi com A Borra do café, que me iniciei em sua prosa, e ah, que prosa...
A Borra do café é um daqueles livros que nos levam pelas mãos de um lugar a outro e a gente se deixa levar com um sorriso nos lábios de puro deleite!
Com pinceladas autobiográficas, Benedetti serviu-se livremente de suas lembranças da infância para compor com maestria o mosaico de uma época e a formação da personalidade e sensibilidade de Claudio, o protagonista do romance, uma espécie de alter-ego de Benedetti.
Narrado em sua maior parte em primeira pessoa, por Claudio, o livro traz também a voz do pai de Claudio bem como um narrador à parte. São 48 capítulos breves, quase pequenas crônicas independentes, voltados, em sua maioria, para fatos marcantes da infância e da juventude de Claudio, como as muitas mudanças de casa, as brincadeiras proibidas e escondidas no parque Capurro, o encontro com o cadáver de um mendigo nesse mesmo parque, a passagem do dirigível alemão Graf Zeppelin por Montevidéu, a morte prematura da mãe, a iniciação sexual com uma moça mais velha, os primeiros amores, as primeiras leituras, as amizades e promessas de nunca se afastarem, o impacto da guerra que chega aos pedacinhos, a notícia da bomba de Nagasaki, que mexe com ele ainda mais que a de Hiroshima.
A ideia de que o futuro de uma pessoa possa estar inserido no passado é a grande premissa, o eixo de A Borra do café. Como o próprio título acena, Benedetti, de forma indireta, lança mão da tradicional arte do Oriente Médio de prever o futuro. É como se o autor, já com seus 70 anos quando escreveu o romance, quisesse explicar o futuro com as mesclas de um passado tão rico e cheio de amores, fantasias, descobertas, medos e amizades. Mas sem a carga piegas ou de emoções apelativas, tudo extremamente bem dosado, como o humor leve e o suave lirismo, tão característico ao autor.
“Quando os anos se somam, a gente começa a ter noção de que o tempo foge, e talvez por isso alimente o autoengano de que escrever sobre o cotidiano pode ser uma forma, por mais primitiva que se queira, de frear esse descalabro. Mas não se consegue freá-lo, claro. Nada nem ninguém é capaz de reter o tempo”
Mas ainda há a forma como Benedetti se relaciona com as personagens femininas, a forma sensível e poética como as descreve e como transfere esse amor, respeito e sensibilidade pra Claudio é simplesmente emocionante. Uma das partes mais bonitas que achei foi quando ele descreveo reconhecimento dos corpos apaixonados, comparando-os ao tango:
“Assim, os sucessivos tangos daquela noite, que não foi mágica, e sim terrestre, permitiram que meu corpo e o de Mariana se conhecessem e se desejassem, se complementassem e se necessitassem. Quando, três dias depois, nos despojamos de toda a roupagem e nos vimos tal e qual éramos, a nudez textual nos trouxe poucas novidades. Desde o quinto tango, nós já sabíamos de cor. Algum detalhe novo (um sinal, sete sardas, a cor dos pelos fundamentais) era pouco menos que subsidiário e não modificava a imagem primeira, a essencial, aquela que a disponibilidade sensitiva de cada corpo havia transmitido aos arquivos da imaginação. A memória do corpo não cai nunca em minúcias. Cada corpo recorda do outro o que lhe dá prazer, e não aquilo que o diminui. É uma memória entranhada, mais, muito mais generosa do que o tato já desgastado das mãos, excessivamente contaminadas de rotina cotidiana. O peito que toca peitos, a cintura que sente cintura, o sexo que roça sexo, toda essa saborosa rede de contatos, embora se verifique através de sedas, casimiras, algodões, fios ou tecidos mais rústicos, aprendem rápida e definitivamente a geografia do território, que chegará ou não a ser amado, mas que por enquanto é fervorosamente desejado.”
O futebol, o amor, a amizade, a guerra, o sexo, a política, os estudos, a literatura, a arte, ou seja, a descoberta do mundo, de si mesmo, a construção de um ser humano sensível, ético, solidário, capaz de sofrer diante das misérias alheias; tudo isso aparece na borra do café de Claudio, além de Rita, a menina da figueira, uma menina que ele não sabia se existia ou se era fruto da sua imaginação. E na vida de Claudio tudo tem a sua hora mais que certa: 3h10 da tarde!
A Borra do café é um livro leve, incrivelmente bem escrito e delicioso, que nos leva a percorrer a nossa própria infância e nos faz achar pontos em comum com Claudio e mais ainda, nos deixa ainda mais famintos pelas letras de Benedetti.
Autor: Mario Benedetti
Tradutor: Joana Angélica d’Avila
Ficção
ISBN: 9788579621468
Lançamento: 01/08/2012
Editora: Alfaguara
Número de páginas: 192
3 de jan. de 2013
Resenha: Os Íntimos - Inês Pedrosa
Cinco homens à mesa de um restaurante. Comida, futebol, conversas. Às vezes sobre mulheres, nunca as próprias. Afonso, Pedro, Augusto, Guilherme e Filipe. O mesmo grupo, o mesmo restaurante, a mesma sensação de intimidade capaz de suspender a solidão por algumas horas. Este é o núcleo central do último livro de Inês Pedrosa, “Os íntimos”. É a partir dele que se irá desenvolver a narrativa. Ambientada em Lisboa, ficcionalizando os modos de vida dos portugueses na atualidade, tem nesta pulsação da vida contemporânea uma característica interessante podendo, inclusive, contribuir para se desfazer a visão estereotipada que ainda se tem sobre os portugueses.
Acredito já ser do conhecimento de quem me acompanha por aqui e ou pelo canal do youtube que sou uma grande fã e apreciadora das obras da escritora portuguesa Inês Pedrosa. Então foi com muita ansiedade que esperei a hora mais acertada pra me entregar à leitura de seu mais recente lançamento por cá: Os Íntimos.
Depois de ler o estupendo Fazes-me falta e o belíssimo Nas tuas mãos, não conseguia segurar a expectativa para o seu próximo romance. Então, por medo, ou até mesmo por uma espécie de felicidade clandestina, adiei a leitura ao máximo, e só me rendi a ele em dezembro, e a resenha só me atrevi a fazer agora porque ainda queria esse travo agridoce na boca só pra mim, ao menos por um pouco mais de tempo.
Em Os Íntimos, Inês Pedrosa nos apresenta um romance que é quase todo em monólogos; onde, num ato de extrema coragem, fala pelos homens e como se ainda fosse pouco, do que pensam e falam das mulheres!
Cinco amigos que se encontram para conversar, dar risadas, falar de política, futebol, de seus tiques, manias e das dores que os cercam, tudo dentro da mais perfeita contemporaneidade, tudo muito próximo do que nos condiz chamarmos de vida real.
Mesmo todo o romance tendo apenas uma personagem feminina, que é a Célia, filha do dono do bar/restaurante, e que os serve uma vez por mês e sorri de seus gracejos para com ela, Inês nos brinda com histórias que estão totalmente atreladas ao feminino, como a de Afonso, médico oncologista que perdeu mulher e filha e está sempre refletindo sobre esses fatos e as duas.
É de Afonso a principal voz narrativa, que representa uma das faces do homem moderno e, ao meu ver, o mais complexo e intenso dos 5 amigos da trama. É ele quem apresenta seus amigos, e é por meio de seus pensamentos que a autora dá uma alfinetada com classe, ironia e bom humor, mandando um recado às mulheres diante dos avanços femininos em diversas áreas:
A emancipação das mulheres parece ter-lhes aguçado um espírito
científico perturbadoramente materialista. (...) Acabaram-se os bons
sentimentos das mulheres: a timidez, o pudor, a culpa, a entrega
desinteressada, enfim, a compaixão. É melhor nem pensar nisso.
(p.29).
Augusto, administrador de uma empresa discográfica, é o que mais se assemelha em gostos e costumes à Afonso. Ambos têm fama de conquistador, relacionaram-se com a mesma mulher, em diferentes momentos, e adoram gabar-se de suas conquistas, cada um a seu modo, claro.
Pedro, o técnico de informática, sem namorada, amante ou esposa, prefere manter-se fechado e distante do mundo, mas sempre ligado à mãe e, em contrapartida, demonstra profundo conhecimento da alma feminina:
“O que eu sei das mulheres,
meus amigos, é isto: elas são muita gente ao mesmo tempo. Como se trouxessem
todas as variedades da vida dentro de seus corpos. Elas são feiticeiras e anjos e
putas. E homens também.” (p. 37)
Já Guilherme é o personagem que decidiu não ser nada. Criado por um pai militar que o envia para um colégio militar pois este queria ver o filho um general ou médico. Após sair da instituição e livrar-se dos rígidos costumes, se emprega na área da farmacêutica onde conheceu sua grande paixão: Clarisse.
Por fim, conhecemos Felipe, um aspirante a artista que, no alto do seu egocentrismo, se julga injustiçado com relação ao talento, bem como ao da sua esposa, e se dirige com superioridade a todos.
Segundo apresentação de Afonso,
“Filipe é um interesseiro incapaz de identificar seus
próprios interesses. Um falhado que persiste na falha. Um miúdo imune à
introspecção. (...) O louco da aldeia que confirma a sanidade mental dos outros.”
(p. 160).
Diante de tantas diferenças entre si, cada um se mantém fiel aos seus encontros mensais, numa convivência marcadamente íntima que, a despeito de tudo o mais, nos fala mais alto e forte sobre o desejo e a necessidade de não estarmos sós.
Os Íntimos, ao lado de Fazes-me Falta e Nas tuas mãos, é, sem sombras de dúvida, a tríade imbatível da escrita maravilhosa dessa força que Inês Pedrosa.
E volto a afirmar: se ainda não conhece a escrita dessa mulher, não perca mais tempo! ;oD
Os Íntimos
Inês Pedrosa
Editora: Alfaguara
200 páginas
Resenhas ótimas:
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