Quem me acompanha há mais tempo por aqui e ou pelo canal no Youtube, já sabe do amor que nutro pela escrita da linda Inês Pedrosa, autora portuguesa que descobri em 2003 quando me deparei com maravilhoso "Fazes-me falta", seu romance de estreia no Brasil. E desde que soube do lançamento de seu último título em Portugal, fiquei em cólicas, torcendo pra que ele chegasse logo por aqui, o que só aconteceu em setembro de 2013. Comprei logo o meu, mas acabei protelando a leitura, no melhor estilo "felicidade clandestina", aguardando mais um pouco pelas surpresas e emoções que certamente sentiria ao ler mais esse romance dela.
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15 de abr. de 2014
3 de jan. de 2013
Resenha: Os Íntimos - Inês Pedrosa
Cinco homens à mesa de um restaurante. Comida, futebol, conversas. Às vezes sobre mulheres, nunca as próprias. Afonso, Pedro, Augusto, Guilherme e Filipe. O mesmo grupo, o mesmo restaurante, a mesma sensação de intimidade capaz de suspender a solidão por algumas horas. Este é o núcleo central do último livro de Inês Pedrosa, “Os íntimos”. É a partir dele que se irá desenvolver a narrativa. Ambientada em Lisboa, ficcionalizando os modos de vida dos portugueses na atualidade, tem nesta pulsação da vida contemporânea uma característica interessante podendo, inclusive, contribuir para se desfazer a visão estereotipada que ainda se tem sobre os portugueses.
Acredito já ser do conhecimento de quem me acompanha por aqui e ou pelo canal do youtube que sou uma grande fã e apreciadora das obras da escritora portuguesa Inês Pedrosa. Então foi com muita ansiedade que esperei a hora mais acertada pra me entregar à leitura de seu mais recente lançamento por cá: Os Íntimos.
Depois de ler o estupendo Fazes-me falta e o belíssimo Nas tuas mãos, não conseguia segurar a expectativa para o seu próximo romance. Então, por medo, ou até mesmo por uma espécie de felicidade clandestina, adiei a leitura ao máximo, e só me rendi a ele em dezembro, e a resenha só me atrevi a fazer agora porque ainda queria esse travo agridoce na boca só pra mim, ao menos por um pouco mais de tempo.
Em Os Íntimos, Inês Pedrosa nos apresenta um romance que é quase todo em monólogos; onde, num ato de extrema coragem, fala pelos homens e como se ainda fosse pouco, do que pensam e falam das mulheres!
Cinco amigos que se encontram para conversar, dar risadas, falar de política, futebol, de seus tiques, manias e das dores que os cercam, tudo dentro da mais perfeita contemporaneidade, tudo muito próximo do que nos condiz chamarmos de vida real.
Mesmo todo o romance tendo apenas uma personagem feminina, que é a Célia, filha do dono do bar/restaurante, e que os serve uma vez por mês e sorri de seus gracejos para com ela, Inês nos brinda com histórias que estão totalmente atreladas ao feminino, como a de Afonso, médico oncologista que perdeu mulher e filha e está sempre refletindo sobre esses fatos e as duas.
É de Afonso a principal voz narrativa, que representa uma das faces do homem moderno e, ao meu ver, o mais complexo e intenso dos 5 amigos da trama. É ele quem apresenta seus amigos, e é por meio de seus pensamentos que a autora dá uma alfinetada com classe, ironia e bom humor, mandando um recado às mulheres diante dos avanços femininos em diversas áreas:
A emancipação das mulheres parece ter-lhes aguçado um espírito
científico perturbadoramente materialista. (...) Acabaram-se os bons
sentimentos das mulheres: a timidez, o pudor, a culpa, a entrega
desinteressada, enfim, a compaixão. É melhor nem pensar nisso.
(p.29).
Augusto, administrador de uma empresa discográfica, é o que mais se assemelha em gostos e costumes à Afonso. Ambos têm fama de conquistador, relacionaram-se com a mesma mulher, em diferentes momentos, e adoram gabar-se de suas conquistas, cada um a seu modo, claro.
Pedro, o técnico de informática, sem namorada, amante ou esposa, prefere manter-se fechado e distante do mundo, mas sempre ligado à mãe e, em contrapartida, demonstra profundo conhecimento da alma feminina:
“O que eu sei das mulheres,
meus amigos, é isto: elas são muita gente ao mesmo tempo. Como se trouxessem
todas as variedades da vida dentro de seus corpos. Elas são feiticeiras e anjos e
putas. E homens também.” (p. 37)
Já Guilherme é o personagem que decidiu não ser nada. Criado por um pai militar que o envia para um colégio militar pois este queria ver o filho um general ou médico. Após sair da instituição e livrar-se dos rígidos costumes, se emprega na área da farmacêutica onde conheceu sua grande paixão: Clarisse.
Por fim, conhecemos Felipe, um aspirante a artista que, no alto do seu egocentrismo, se julga injustiçado com relação ao talento, bem como ao da sua esposa, e se dirige com superioridade a todos.
Segundo apresentação de Afonso,
“Filipe é um interesseiro incapaz de identificar seus
próprios interesses. Um falhado que persiste na falha. Um miúdo imune à
introspecção. (...) O louco da aldeia que confirma a sanidade mental dos outros.”
(p. 160).
Diante de tantas diferenças entre si, cada um se mantém fiel aos seus encontros mensais, numa convivência marcadamente íntima que, a despeito de tudo o mais, nos fala mais alto e forte sobre o desejo e a necessidade de não estarmos sós.
Os Íntimos, ao lado de Fazes-me Falta e Nas tuas mãos, é, sem sombras de dúvida, a tríade imbatível da escrita maravilhosa dessa força que Inês Pedrosa.
E volto a afirmar: se ainda não conhece a escrita dessa mulher, não perca mais tempo! ;oD
Os Íntimos
Inês Pedrosa
Editora: Alfaguara
200 páginas
Resenhas ótimas:
30 de dez. de 2012
Aleatoriedade dominical: Fazes-me falta
| by Kumi Yamashita |
"Descansa em paz. Fizeste uma morta bonita - mais bonita e serena do que alguma vez foste, cachopa. Compuseram-te a imagem. Disso vivem as figuras públicas, mesmo na morte. Viva a imagem. Talvez fosse melhor não te ter visto, não ter beijado a tua testa. Agarrei-me a essa derradeira nota do teu calor. Ficaste-me com um travo a incenso e flores mortas. O cheiro do amor vedado que abandonáramos pela paisagem da nossa pré-história. Chamo-lhe amor para simplificar. Há palavras assim, que se dizem como calmantes. Palavras usadas em série para nos impedir de pensar. O que existia, existe, entre nós, é uma ciência do desaparecimento. Comecei a desaparecer no dia em que os meus olhos se afundaram nos teus. Agora que teus olhos se fecharam sei que não voltarás a devolver-me os meus" (Pág. 10).
Inês Pedrosa
16 de set. de 2012
Aleatoriedade dominical: Inês Pedrosa
| Imagem by Dovile |
Não te preocupes como ou quanto, nem caias na tentação de distinguir amor e paixão: a pouco e pouco, fui vendo que essas divisões são armadilhas que se montam para que o pano caia sobre os nossos olhos e a imortalidade desapareça do nosso horizonte. O amor, Camila, consiste na divina graça de parar o tempo. E nada mais se pode dizer sobre ele”.
(In: Nas tuas mãos, de Inês Pedrosa, p. 24-25)
19 de jun. de 2012
Resenha: Fazes-me Falta - Inês Pedrosa
Fazes-me falta, da jornalista portuguesa Inês Pedrosa, foi lançado no Brasil em 2003, pela editora Planeta, numa primeira edição linda, de capa dura que me pegou pelo olhar e me fez levar um exemplar correndo pra casa e nele mergulhar até quase me afogar em lágrimas e sorrisos a cada página lida!
E hoje eu senti saudades desse livro, tanto que voltei a lê-lo.
Ele tem uma narrativa densa em duas perspectivas distintas do mesmo momento. Inês criou uma estrutura simples, curta, na qual cada capítulo, que dura em geral duas ou três páginas, traz o pensamento de um deles, em forma alternada A morte precoce da protagonista descortina a intensa relação entre o homem e a mulher. No limiar entre a amizade e a paixão, os dois não suportam a separação definitiva e, em paralelos, costuram seus encontros e desencontros, afinidades e divergências, silêncios e desabafos.
Ela, uma jovem professora idealista que se envolve na política em busca da realização de um mundo mais justo; ele, um homem maduro que vê o mundo a partir de suas vivências em Portugal pós-revolução e nas guerras no continente africano. A mulher, marcada por um amor não cicatrizado e por diversas relações interrompidas, morre de repente e condena o homem que passou por alguns casamentos e manteve a sensação de incompletude projetada na ausência de filhos a uma estranha viuvez.
“Demasiado tarde. São estas as palavras mais tristes de qualquer língua.”
“Arrumei os amores, é a primeira regra da vida – saber arquivá-los, entendê-los, contá-los, esquecê-los. Mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha. A amizade só se perde por traição – como a pátria. Num campo de batalha, num terreno de operações. Não há explicações para o desaparecimento do desejo, última e única lição do mais extraordinário amor. Mas quando o amor nasce protegido da erosão do corpo, apenas perfume, contorno, coreografado em redor dos arco-íris dessa animada esperança a que chamamos alma – porque se esfuma? Como é que, de um dia para o outro, a tua voz deixou de me procurar, e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua?”
Há poesia em cada diálogo travado, digo diálogo porque é o que, deliciosamente, acontece, vez por outra, quando, as impressões de ambos se encontram em um paralelo de dor e saudade, amor e companheirismo.
E o melhor de tudo é que nessa primeira edição foi mantido o português de Portugal, que ainda tem, a meu ver, um "Q" de mais forte, impetuoso.
Com certeza esse é um livro para se ler, reler sempre!!
"A felicidade é uma coleção de instantes suspensos sobre o tempo que só depois de amarelados pela ausência se revelam"
Fazes-me falta
Inês Pedrosa
Literatura Local [Estrangeira pra nós! rs]
Páginas: 238 páginas
ISBN: 8574795577
Formato: 15.6 x 1.8 cm.
Encadernação: Tapa rústica
Selo: Planeta
Nº de Edição: 1
Publicação: Abril 2003
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