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29 de set. de 2013

Deixa Comigo - Mario Levrero



Ao contemplar a capa do livro Deixa comigo, de Maria Levrero,  me senti logo atraída, sem saber ao certo se era o título, o laranja ou  a menção de que ele faz parte de uma coleção, a “Otra Língua”, onde são publicados autores  de língua hispano-americana, que há muito têm sido ignoradas pelo mercado editorial brasileiro. Mas o que realmente me motivou a trazê-lo pra casa foi a resposta que recebi do livreiro quando o questionei se ele já o tinha lido ou não: "Ah, dei uma passada de olho, mas pelo visto é sobre briguinha de ego de escritores e editor!"; achei tão simplista e pelo tom dele tão preconceituoso que acreditei piamente que o livro fosse realmente melhor que isso.

Mais tarde, já em casa e com a leitura quase concluída, visitando alguns blogs, me deparei com uma resenha desse livro pela Camila Kehl, do Livros abertos, e, ao ler,  fiquei imensamente feliz de não ter levado à sério a crítica um tanto quanto negativa do livreiro que me atendeu.

Deixa comigo, narra numa linguagem simples e fluida as aventuras detetivescas de um escritor fracassado. Desesperado por dinheiro, o protagonista, sem nome, com a promessa da possibilidade de lhe editarem um romance, aceita como missão buscar o autor de um manuscrito de grande valor literário enviado, sem endereço de remetente, a uma editora. Tem como únicas pistas  sobre o  misterioso autor, o nome Juan Pérez e sua provável residência no vilarejo denominado Penurias, que tem como vizinhas as  cidades de Misérias e Desgracias.

Em uma narrativa ágil, cômica acompanhamos as aventuras do narrador e suas lamentações sobre sua vida, o divórcio e a sua impotência, até que este se vê completamente apaixonado pela prostituta Juana. De capítulos curto é recheado de boas tiradas, uma pitada de humor negro e também algumas boas reflexões um pouco acima das entrelinhas.

Uma novela simples, direta mas que é extremamente eficaz ao que se propõe, que é o entretenimento com qualidade, deixando uma vontade de ler mais o autor e a pergunta no ar: porque só agora, depois de sua morte, Levrero finalmente chegou ao Brasil? De certa forma ele mesmo responde a essa questão em seu livro e no adendo, uma entrevista que Levrero faz consigo mesmo!

Imperdível, e que vontade de rir na cara do livreiro... rs


♥♥♥♥



Livro: Deixa Comigo
Subtítulo: Coleção Otra Língua
Autor: Mario Levrero
Tradução: Joca Reiners Terron
Editora: Rocco
Ano: 2013
Páginas:160


15 de abr. de 2013

Resenha: Primavera num espelho partido - Mario Benedetti



"Apesar de tudo, o corpo é mais adaptável do que o espírito. O corpo é o primeiro a se acostumar aos novos horários, a suas novas posturas, ao novo ritmo de suas necessidades, a seus novos cansaços, a seus novos descansos, a seu novo fazer e a seu novo não fazer."

Quando eu era criança e já conseguia perceber com um pouco mais de discernimento a realidade das coisas, eu ficava em êxtase quando minha mãe nos reunia à mesa do jantar para nos comunicar que nos mudaríamos mais uma vez e em breve, que o papai tinha sido novamente transferido e que só esperaríamos as férias chegarem, o que geralmente era coisa de uns 30 a 20 dias antes da mudança. Mas com o passar do tempo e muitas despedidas depois, esse êxtase foi se transformando, pouco a pouco, na consciência de que o adeus muitas vezes é para sempre e que ele dói tanto quanto se sentir sem raízes.

Assim que comecei a ler Primavera num espelho partido, do uruguaio Mario Benedetti, soube imediatamente que não sairia imune dele. Ainda mais depois de ler o capítulo intitulado Don Rafael (Derrota e rota).
O essencial é adaptar-se. (...)Nem todos tem um exílio próprio. A mim quiseram empurrar um alheio. tentativa inútil. Transformei-o em meu. Como foi? Isso não importa. Não é um segredo nem uma revelação. Eu diria que é preciso começar apoderando-se das ruas. Das esquinas. Do céu. Dos cafés. Do sol, e o que é mais importante, da sombra. É somente quando alguém chega a perceber que uma rua não lhe é estrangeira que a rua pára de vê-lo como um estranho. E assim com todo o resto.

 E sim, durante muitos anos considerei-me uma exilada, mesmo sem saber do termo e muito menos seus significados...

Mario Benedetti, poeta, escritor e ensaísta uruguaio foi-me apresentado, como já citei aqui, pela Denise Mercedes do blog e vlog Meus Olhos Verdes, e com apenas dois livros lidos já tinha se tornado um dos meus queridos, agora posso afirmar que além de querido é um dos meus autores reconfortantes!

Em Primavera num espelho partido, romance de 1982 e lançado no Brasil somente em 2009, Benedetti nos narra uma história de saudades, exílios, amores, dramas, sonhos, separações, culpas e uma boa dose de política. É também uma história com tons autobiográficos, já que, como um dos personagens de sua ficção, o escritor também esteve, por 12 anos, exilado em outros países, entre eles Peru, Argentina, Cuba e Espanha, devido a sua posição e opiniões políticas no período da Ditadura Uruguaia.

O romance é construído a partir de seis vozes narrativas que,  em pequenos capítulos,  revelam, aos poucos,  a história e seus personagens. Santiago, o homem culto e ativista politico, que foi preso e torturado e já está preso há mais de 4 anos. Graciela, sua mulher, também tem de exilar-se com a filha, Beatriz, e o sogro, Dom Rafael e que, para sobreviver, trabalha como secretária tentando levar adiante sua vida da melhor maneira possível. Os capítulos são apresentados em cinco perspectivas diferentes: as cartas que Santiago escreve à sua mulher da prisão. O cotidiano de Graciela e a sua labuta para criar a filha do casal. O monólogo de Dom Rafael. A perspectiva de Rolando Austero, amigo de Santiago e da família. As redações da pequena Beatriz. E os capítulos em  que, sem ter relação direta com a história, narram em primeira pessoa as experiências do próprio Benedetti no exílio.

Apesar de ter formado com Santiago um casal perfeito, Garciela percebe que o tempo e a distância os afastam, e que ela, de tanto viver longe, já não precisa mais dele. Em contrapartida, no claustro é como se o tempo tivesse parado para Santiago, que cultiva o sonho de, ao sair da prisão, retomar sua vida, encontrar as pessoas, ou ao menos os sentimentos, do mesmo jeito que as deixara ao ser preso.

O título ainda carrega a força política, pois refere-se à Ode a primavera, de Pablo Neruda, poema cuja metáfora se refere à justiça social; além de uma bela justificativa poética, que veremos nas indagações de Santiago ao final do romance, e também a vemos quando Don Rafael nos fala dela, ao lembrar seu relacionamento com a esposa já falecida:

“Quando tínhamos apenas dois anos de casados, em um dos seus infreqüentes impulsos de confidência, que eram como uma concessão que nos fazia às vezes (a ela e a mim), disse que bom seria morrer ouvindo alguma das Quatro Estações, de Vivaldi. E muitos anos depois, exatamente em dezessete de junho de mil novecentos e cinqüenta e oito, quando estava lendo e de repente ficou imóvel para sempre, no rádio (não era sequer um toca-discos) estava tocando a Primavera. Santiago ficou sabendo e talvez por isso essa palavra, primavera, tenha se ligado para sempre à sua vida. É como o seu termômetro, seu padrão, sua norma”…

De todos os personagens do livro Santiago é o mais otimista e crédulo, acredita em seus sonhos e se mantém vivo e incorruptível por ele. É a personagem que mais tive vontade de colocar no colo e afagar. Se bem que sua filha, Beatriz, é o melhor contrapeso que um escritor poderia ter utilizado. Nela podemos ver a perplexidade de uma criança atenta, inteligente e que questiona, racionaliza, mesmo quando se perde e confunde com a linguagem, como no episódio que confunde "poluição" com "polução", é realmente muito bom, uma dose extra e fina de humor! E o que dizer dela quando fala de liberdade:

“Liberdade quer dizer muitas coisas. Por exemplo, se você não está presa se diz que está em liberdade. Mas meu pai está preso e no entanto está em Liberdade, pois é assim que se chama a prisão onde está há muitos anos… Meu pai é um preso, mas não porque tenha matado ou roubado ou chegado tarde à escola. Graciela diz que meu pai está em Liberdade, ou seja, preso, por suas idéias. Parece que meu pai era famoso por suas idéias. Eu também tenho idéias, às vezes, mas ainda não sou famosa. Por isso não estou em Liberdade, ou seja, não estou presa… De forma que liberdade é uma palavra enorme. Graciela diz que ser um preso político como meu pai não é nenhuma vergonha. Que é quase um orgulho. Por que quase? É orgulho ou é vergonha? Gostaria que eu dissesse que é quase vergonha? Estou orgulhosa, não quase orgulhosa, de meu pai, porque teve muitíssimas idéias, tantas e tantas que foi preso por causa delas. Acho que agora meu pai vai continuar tendo idéias, idéias espetaculares, mas é quase certo que não fale sobre elas com ninguém, porque se falar, quando sair da Liberdade para viver em liberdade, podem fechá-lo outra vez na Liberdade. Estão vendo como é enorme?”.

Não há como mensurar a dor que cada tipo de exílio pode causar, muito menos apagar as cicatrizes por eles deixadas, mas Benedetti ainda nos traz mais uma questão que é a do "desexílio", palavra inventada por ele para se referir ao processo de readaptação dos exilados ao voltar para casa. Como será o fim desse inverno, será que Santiago terá razão?

…depois desses cinco anos de inverno ninguém vai me roubar a primavera…
A primavera é como um espelho mas o meu está com a ponta quebrada/era inevitável não ia sair inteirinho desse bem nutrido qüinqüênio/mas apesar da ponta quebrada o espelho serve a primavera serve…
Acredito que o escritor Julián Fucks, ao falar de si mesmo, fecha com chave de ouro a questão levantada por Benedetti e também às que ainda teimam em bailar em meu coração:

“EU ERA UM MENINO, MEUS PAIS ESTAVAM CANSADOS DO EXÍLIO, QUERIAM RECOBRAR SEU PAÍS: TIVE QUE ME INVENTAR ARGENTINO. ME LIVREI DAS ROUPAS FESTIVAS, DA MOLEZA DA LÍNGUA, DEIXEI O CABELO MAIS COMPRIDO. NÃO ADIANTOU: PARA ELES, FUI SEMPRE UM ARGENTINO PRECÁRIO, UM BRASILEIRO ENRUSTIDO. QUANDO VOLTEI, ESTAVA FELIZ. RECUPERARIA MEU EU ANTIGO. TRISTE ILUSÃO: FUI TAMBÉM UM BRASILEIRO FALSO. ALGUÉM, TALVEZ EU MESMO, SEMPRE ME QUIS O OUTRO QUE EU JAMAIS SERIA.”



Primavera num espelo partido
Mario Benedetti
Trad.: Eliana Aguiar
Alfaguara
224 págs.



Esta resenha também faz parte do Desafio Literário 2013, cujo tema é referente ao mês de abril: Estações 
do ano no título da obra.



1 de fev. de 2013

Resenha: A Borra do Café - Mario Benedetti


Para onde vão as névoas, a borra do café, os almanaques de outros tempos?
 Julio Cortázar


Mario Benedetti, que na verdade assinava Mario Orlando Hardy Hamlet Brenno Benedetti Farrugia, foi um  escritor, poeta, ensaísta uruguaio, nasceu em Paso de los Toros na década de 20 e faleceu em 2009, com 88 anos, em Montevidéu. Considerado um dos principais autores uruguaios, escreveu mais de 80 livros entre poesia, romances, contos e ensaios, bem como roteiros para cinema.

Meu primeiro contato com Benedetti foi em meados de 2012 e totalmente indireto; se deu através dos vídeos da Denise Mercedes, no seu canal Meus olhos verdes. Lembro-me que ela falou com tanta emoção sobre o livro Primavera num espelho partido, que fiquei mega curiosa em conhecer a escrita desse autor, tanto que o coloquei na minha lista de autores para ler em 2013, como mostrei nesse vídeo.
Como sua obra mais vasta foi no gênero da poesia, acabei por começar a lê-lo pelo O Amor, as mulheres e a vida - Antologia de poemas de amor, que achei uma delícia e que ainda quero falar melhor sobre ele.
Mas foi com A Borra do café, que me iniciei em sua prosa, e ah, que prosa...

A Borra do café é um daqueles livros que nos levam pelas mãos de um lugar a outro e a gente se deixa levar com um sorriso nos lábios de puro deleite!
Com pinceladas autobiográficas, Benedetti serviu-se livremente de suas lembranças da infância para compor com maestria o mosaico de uma época e a formação da personalidade e sensibilidade de Claudio, o protagonista do romance,  uma espécie de alter-ego de Benedetti.

Narrado em sua maior parte em primeira pessoa, por Claudio, o livro traz também a voz do pai de Claudio bem como um narrador à parte. São 48 capítulos breves, quase pequenas crônicas independentes, voltados, em sua maioria, para fatos marcantes da infância e da juventude de Claudio, como as muitas mudanças de casa, as brincadeiras proibidas e escondidas no parque Capurro, o encontro com o cadáver de um mendigo nesse mesmo parque, a passagem do dirigível alemão Graf Zeppelin por Montevidéu, a morte prematura da mãe, a iniciação sexual com uma moça mais velha, os primeiros amores, as primeiras leituras, as amizades e promessas de nunca se afastarem, o impacto da guerra que chega aos pedacinhos, a notícia  da bomba de Nagasaki, que mexe com ele ainda mais que a de Hiroshima.

“Quando os anos se somam, a gente começa a ter noção de que o tempo foge, e talvez por isso alimente o autoengano de que escrever sobre o cotidiano pode ser uma forma, por mais primitiva que se queira, de frear esse descalabro. Mas não se consegue freá-lo, claro. Nada nem ninguém é capaz de reter o tempo”

A ideia de que o futuro de uma pessoa possa estar inserido no passado é a grande premissa, o eixo de A Borra do café. Como o próprio título acena, Benedetti, de forma indireta, lança mão da tradicional arte do Oriente Médio de prever o futuro. É como se o autor, já com seus 70 anos quando escreveu o romance, quisesse explicar o futuro com as mesclas de um passado tão rico e cheio de amores, fantasias, descobertas, medos e amizades. Mas sem a carga piegas ou de emoções apelativas, tudo extremamente bem dosado, como o humor leve e o suave lirismo, tão característico ao autor.

Mas ainda há a forma como Benedetti se relaciona com as personagens femininas, a forma sensível e poética como as descreve e como transfere esse amor, respeito e sensibilidade pra Claudio é simplesmente emocionante. Uma das partes mais bonitas que achei foi quando ele descreveo reconhecimento dos corpos apaixonados, comparando-os ao tango:

“Assim, os sucessivos tangos daquela noite, que não foi mágica, e sim terrestre, permitiram que meu corpo e o de Mariana se conhecessem e se desejassem, se complementassem e se necessitassem. Quando, três dias depois, nos despojamos de toda a roupagem e nos vimos tal e qual éramos, a nudez textual nos trouxe poucas novidades. Desde o quinto tango, nós já sabíamos de cor. Algum detalhe novo (um sinal, sete sardas, a cor dos pelos fundamentais) era pouco menos que subsidiário e não modificava a imagem primeira, a essencial, aquela que a disponibilidade sensitiva de cada corpo havia transmitido aos arquivos da imaginação. A memória do corpo não cai nunca em minúcias. Cada corpo recorda do outro o que lhe dá prazer, e não aquilo que o diminui. É uma memória entranhada, mais, muito mais generosa do que o tato já desgastado das mãos, excessivamente contaminadas de rotina cotidiana. O peito que toca peitos, a cintura que sente cintura, o sexo que roça sexo, toda essa saborosa rede de contatos, embora se verifique através de sedas, casimiras, algodões, fios ou tecidos mais rústicos, aprendem rápida e definitivamente a geografia do território, que chegará ou não a ser amado, mas que por enquanto é fervorosamente desejado.”

O futebol, o amor, a amizade, a guerra, o sexo, a política, os estudos, a literatura, a arte, ou seja, a descoberta do mundo, de si mesmo, a construção de um ser humano sensível, ético, solidário, capaz de sofrer diante das misérias alheias;  tudo isso aparece na borra do café de Claudio, além de Rita, a menina da figueira, uma menina que ele não sabia se existia ou se era fruto da sua imaginação. E na vida de Claudio tudo tem a sua hora mais que certa: 3h10 da tarde!

A Borra do café é um livro leve, incrivelmente bem escrito e delicioso, que nos leva a percorrer a nossa própria infância e nos faz achar pontos em comum com Claudio e mais ainda, nos deixa ainda mais famintos pelas letras de Benedetti.




Título: A Borra do café
Autor: Mario Benedetti
Tradutor: Joana Angélica d’Avila
Ficção
ISBN: 9788579621468
Lançamento: 01/08/2012
Editora: Alfaguara
Número de páginas: 192