Cedo ou tarde, na vida, cada um de nós se dá conta de que a felicidade completa é irrealizável; poucos, porém, atentam para a reflexão oposta: que também é irrealizável a infelicidade completa. Os motivos que se opõem à realização de ambos os estados-limite são da mesma natureza; eles vêm de nossa condição humana, que é contra qualquer "infinito". Assim, opõe-se a esta realização o insuficiente conhecimento do futuro, chamado de esperança no primeiro caso e de dúvida quanto ao amanhã, no segundo. Assim, opõe-se a ela a certeza da morte, que fixa um limite a cada alegria, mas também a cada tristeza. Assim, opõem-se as inevitáveis lides materiais que, da mesma forma como desgastam com o tempo toda a felicidade, desviam a cada instante a nossa atenção da desgraça que pesa sobre nós tornando a sua percepção fragmentária, e, portanto, suportável."
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20 de ago. de 2013
Resenha: É isto um homem? - Primo Levi
23 de abr. de 2013
Resenha: Acabadora - Michela Murgia
Nascimento e morte, ação e reação, acasos e destino, fé e a falta dela, tradições e crenças, e tudo isso sobre solo italiano, mais especificamente o da Sardenha, fez com que eu elevasse, e muito, as minhas expectativas acerca do Acabadora, primeiro livro da autora italiana Michela Murgia a ser editado no Brasil
A escrita de Michela é mais emotiva que poética, e flui em suas descrições detalhadas de algo que conhece tão bem, e de onde também veio, que é a região da Sardenha, sua cultura e seu povo.
No início dos anos cinquenta em Soreni , uma pequena vila fictícia na Sardenha, onde todos sabem tudo sobre todos e passam os dias fingindo não saber, a pequena Maria Listru, a última e indesejada das quatro irmãs orfãs, é adotada por Bonaria Urrai, uma viúva rica, mas sem nunca ter se casado. Maria torna-se uma "filha d'alma,
É assim que se chamam as crianças geradas duas vezes, pela pobreza de uma mulher e pela esterilidade da outra. Maria Listru era filha desse segundo parto, fruto tardio da alma de Bonaria Urrai.
Maria e Bonaria, que apesar de rica é a costureira da aldeia, vivem como mãe e filha. E nos primeiros 17 capítulos do livro vamos seguindo os passos e o crescimento da pequena Maria, que aos poucos percebe que há alguns segredos em volta da sua nova mãe, ainda mais quando ela se veste de preto para suas saídas noturnas; no entanto é notável o quanto a velha Bonaria se esforça para manter seus segredos e como a pequena Maria, espertar e curiosa, se permite ficar alheia aos acontecimentos.
Graças ao narrador onisciente, nós podemos logo perceber as características mais marcantes de Bonaria Urrai, mas é muito interessante acompanhar as dúvidas e desconfianças distantes de uma criança que vai aprendendo a confiar e amar essa segunda mãe tão inesperada e diferente da primeira, com seus carinhos retraídos, sua preocupação em educá-la bem e seus segredos.
O próprio vilarejo e seus moradores se fazem personagens do romance. Eles acompanham as histórias de todos, seus rumores e calúnias. A própria Bonaria diz que perdeu o noivo, tornando-se uma viúva de guerra; há ainda os conflitos entre donos de terra, cada um arrastando, com ou sem feitiços, suas cercas pro lado que interessam; a dificuldade em fazer as crianças aprenderem o italiano, já que só falam o dialeto sardo; as carpideiras, mulheres pagas para chorarem o morto em seus lúgubres e cantados funerais; o Luto oficial e o lamentar sobre os mortos e a tradição da portas das casas permanecem abertas na noite de 01 de novembro para receber as almas que vagam, a ânsia por vingança de Nicola Bastiú e relação de amizade entre Maria e Andrían; o despertar dos primeiros amores, e as famílias em desespero que clamam pela acabadora.
Falar sobre eutanásia hoje não é fácil, e Michela nos mostra que, mesmo em meio às suas tradições, e em 1950 também não era; e eu acredito que nunca será. É um assunto extremamente delicado que mexe com um numero x de questões que não quero discutir aqui. É por toda essa efervescência de assuntos e motes, de personagens interessantes e densos, que achei que o romance não foi tão bem trabalhado, ou que a autora tenha se permitido pudores a mais para falar de sua terra natal. Imaginei que o mote da acabadora fosse ser mais explorado, mas não, ficou tudo no âmbito do aceitável, do tocante entendimento, e uma sensação de que faltou a cereja do bolo! Pois só o cenário, uma vila católica, durante o pós guerra, já é mote suficiente pra muita entrelinha e linhas expostas.
Mas enfim, é um livro bom sim, sutil, emocionante e poético em muitas partes, mas que tinha tudo para ser ótimo e não foi ou eu é que não alcancei a profundidade necessária de suas linhas e entrelinhas!
♥♥♥
Título: Acabadora
Autora: Michela Murgia
Editora: Alfaguara
Tradução: Frederico Carotti e Denise Bottmann
Nº de páginas: 160
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