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6 de jun. de 2013

Resenha: A Paixão pelos livros





Falar de um amor é sempre tão complicado, ao menos pra mim, mas explicar esse amor e todos os caminhos que nos levam a ele é ainda mais confuso, pois nem sempre consigo ordenar em uma sucessão lógica, no mínimo, de palavras inteligíveis o que sinto. Por isso fico muito feliz quando descubro algum livro escrito por quem sabe sobre e ama livros!

"A Paixão pelos livros" chegou até mim por indicação, mais uma vez, da Denise Mercedes, do blog e vlog Meus Olhos Verdes. E quando eu o comprei, fiquei encantada, de cara, pela beleza da edição e pelo

7 de fev. de 2013

Vídeo-Resenha: Histórias de Literatura e Cegueira - Julián Fucks




Mais uma super leitura que acabei por fazer só o vídeo com as minhas impressões.
Não deixem de ver e principalmente de ler, pois Julián Fucks é um excelente escritor e o livro vale demais!
E se ainda não conhece meu canal no youtube, aproveite pra se inscrever, ficarei bem feliz! ;oD



HISTORIAS DE LITERATURA E CEGUEIRA
Autor: FUKS, JULIAN
Editora: RECORD
Assunto: LITERATURA BRASILEIRA - CONTOS E CRÔNICAS
ISBN: 850107943x
ISBN-13: 9788501079435
Idioma: português
Encadernação: Brochura
Edição: 1ª
Ano de Lançamento: 2007
Número de páginas: 160




29 de jan. de 2013

Resenha: Coisas Frágeis 2 - Neil Gaiman



“Parecia um belo título para um livro de contos. Afinal, existem tantas coisas frágeis. Pessoas se despedaçam tão facilmente, sonhos e corações também.”



Ler Neil Gaiman era um desejo antigo, principalmente por conta de Sandman, pois sempre ouvi maravilhas acerca dele. No entanto, resolvi conhecer primeiro sua escrita através de seus contos e poesias, e como me apaixonei pela capa e pelo título [sim, compro livro apenas pela capa quando a acho linda!] resolvi que meu primeiro "Gaiman" seria Coisas Frágeis 2

Coisas Frágeis, na verdade, foi concebido em volume único, só a edição brasileira, pela Conrad é que o dividiu em dois, e pelo que pude perceber, não foi uma escolha das mais felizes, porque já li muita gente dizendo que, digamos, o que coube ao segundo volume, o refugo da obra. 

Por ter sido a minha primeira experiência com a escrita de Neil Gaiman, o estranhamento permeou toda a minha leitura. Muitas vezes duvidei se estava me entendo bem ou não com o texto, com as estórias e poesias. Mas esse estranhamento não foi ruim, ao contrário, meio que me retirou da minha zona de conforto,  pelo fato de não ter o hábito de ler contos, ainda mais com as temáticas que ele aborda.

A escrita em si eu achei bem simples e fácil, os contos são curtos e também gostei muito de outras características que percebi com a leitura como a da direção que o autor nos dá no início do livro, fazendo uma preleção acerca de cada texto, de como seu medo em viajar de avião o torna produtivo e de como jamais descarta uma ideia, sempre guardando seus escritos para aproveitá-lo em algum outro momento, disso gostei muitíssimo!

Os contos foram trabalhados com uma grande quantidade de assuntos e em todos, lida com as “coisas frágeis” a que N.G. se refere explicativamente na introdução.
Não falarei acerca de todos os contos e poesias, mas segue um pouco sobre os que eu mais gostei:

Noivas Proibidas dos Escravos sem Rosto na Casa Secreta da Noite do Temível Desejo:
Adorei esse conto! E acredito que qualquer pessoa que escreva e ou tenha alguma vontade de se tornar escritor deveria lê-lo! .

Pó Amargo:
Uma história muito interessante sobre um sujeito falido [entendi mais emocional que materialmente], que sai pela vida vivendo o que lhe se apresenta, literalmente como um zumbi.

Os Outros: 
Uma visão interessantíssima sobre julgamentos finais, infernos e coisas assim.

O Dia dos Namorados do Arlequim: 
Esse conto é, no mínimo, inusitado, inteligente e intrigante, me cativou!

Meninas Estranhas:
Um conto composto por 12 pequenas histórias, mas o que mais me fez gostar dele é que foi inspirado pelo CD Strange Little Girls, da Diva Tori Amos. Claro que li e reli enquanto ouvia o Cd! ;oD

Inventando Aladim:
Uma excelente e rápida versão de As Mil e uma noites... Me afligi junto à Sherazade! rs

No Final:
Também por ser uma releitura, mas dessa vez de uma passagem bíblica, a expulsão do paraíso.

Como eu temia, e comentei sobre isso em um dos vídeos do canal no youtube, eu não sei se estou conseguindo escrever algo relevante quanto ao que senti e sobre o livro, mas enfim, todo o estranhamento só tem feito a minha vontade em ler Gaiman aumentar!




26 de out. de 2012

Resenha: Caixa Preta - Jennifer Egan



Conto feito especialmente para ser publicado pelo Twitter. A engenhosa história de espionagem que se passa no futuro, considerada pelo escritor Ian McEwan “a melhor leitura dos últimos anos”, foi publicada diariamente no twitter da Intrínseca (@intrinseca), das 22h às 23h, de 20 a 30 de agosto. Escrito originalmente à mão em um caderno japonês de oito retângulos por página, Caixa Preta foi lançado exclusivamente em e-book no dia 31 de agosto.

Acredito que a essa altura, Jennifer Egan dispense qualquer apresentação, mas se você ainda não sabe nada sobre ela e nem leu nenhum de seus livros, saiba um pouco mais sobre ela aqui.

Caixa Preta, na verdade, foi publicado a partir de anotações que Jennifer fez em seu caderno japonês, e disponibilizado, primeiramente, no perfil de ficção da revista norte-americana  New Yorker no período de  24 de maio a 02 de junho desse ano. E foram necessários 1 ano inteiro para que a autora escrevesse os mais de 600 tuítes! E o que é mais interessante é que, em entrevista, a própria Jennifer alegou “ter uma relação complicada com a tecnologia”, e por puro medo, como afirmou: “Tenho medo da tecnologia de uma forma muito simples, como o medo de não saber usar.”
Pelo visto ela superou muito bem o seu medo, pois o conto é muito bom! Não chega nem perto de A Visita Cruel do Tempo, mas dá conta do recado direitinho!

O conto é uma ficção científica meio triller, onde a protagonista é uma agente secreta à serviço do governo norte-americano, que tem por objetivo passar informações coletadas sobre os esquemas de homens poderosos e violentos. A protagonista, chamada apenas de "gatinha", sujeita seu próprio corpo à implantes de diversos tipos de dispositivos de espionagem, como câmeras, GPS, disco de memória e coisas afins, para conseguir obter as informações das quais precisa sobre os seus alvos.

Narrado em 2ª  pessoa, a escrita é rápida e envolvente, com frases curtas, como era de se esperar por conta da mídia utilizada,  lembra  um manual de instruções ao qual a "Gatinha" vai seguindo e nos conduzindo por seus próximos passos; mas como a autora disse, são "disparos mentais" da protagonista, como se ela fosse repensando alto os próximos passos para desempenhar a contento a sua missão.

Como em toda obra de espionagem em que mulheres são envolvidas, há sempre o apelativo sexual, pois cabe à ela a conquista das informações necessárias ao Governo, independente do que vier a acontecer em decorrência disso. Mesmo sabendo que essa aparente fragilidade que o mundo machista dá à mulher, como sendo presa fácil por ser considerada frágil, e a consequente utilização de sua condição como arma eficaz, me incomoda um pouco. Ainda gostaria muito de ver uma espiã não ser obrigada a se valer da sua sexualidade pra conseguir seu intento! Mas essa é apenas a minha opinião! ;)


     " Como gatinha, às vezes espera-se que você passe de mão em mão.
      Em geral, você passará das mãos de um homem menos poderoso para as de um mais poderoso.
      Maior proximidade com a fonte de dinheiro e controle é um progresso.
      Seu trabalho é o mesmo, não importa nas mãos de quem esteja.
      Se sua vulnerabilidade e impotência chamaram a atenção de um alvo inimigo, acentue-as.
      Pernas sujas e arranhadas podem acentuar sua vulnerabilidade a ponto de causar repulsa.
      Mas podem conseguir para você um banho quente. "  

Com toda certeza Caixa Preta é uma leitura super recomendada, porque se valendo de uma mídia diferente e super dinâmica, sobressaiu-se mantendo o ritmo, o enredo e a atenção sem ser entediante!




Todas as informações e download: Editora Intrínseca



1 de jul. de 2012

Minhas Querências... Lançamentos da Bertrand Brasil


Carpinejar lança, pela primeira vez, um livro de crônicas temático. Em Ai meu Deus, Ai meu Jesus, ele trata de assuntos e situações relacionadas a amor e sexo.

Elena está insatisfeita com a vida que leva e com a mulher em que se transformou. Casada com Paolo, ela se vê presa a um relacionamento que há muito se tornou apenas uma sombra da rotina, totalmente destituído de paixão. Nas páginas de um diário, narra a lenta e dolorosa transformação desse amor, outrora carnal, em algo diferente – um sentimento feito de laços fraternais – e da criança decidida e segura de si na mulher insípida e desamparada.

O título foi escolhido pela maneira como Castello encara seu trabalho crítico. As “feridas” se referem às marcas, cicatrizes, golpes, que as diversas leituras provocam nele. Segundo o próprio autor, ele não faz uma leitura teórica. Escrever sobre um livro não para aplicar teorias, mas como alguém que viajasse a um continente distante e, na volta – isto é, finda a leitura – faz um relato de suas observações pessoais a respeito da viagem.
Essa é a ideia central que permeia e liga todo o livro. Ele é também um registro de seu trabalho jornalístico nas páginas do Globo, Valor Econômico, Bravo, Rascunho, entre outros. Castello, delicia-se em trabalhar com jornalismo literário – um tipo de jornalismo que, mais que os fatos, importam os pensamentos.






21 de jun. de 2012

Conto: Missa do Galo - Machado de Assis



Uma  singela homenagem aos 173 anos de nascimento de Machado de Assis, segue meu conto favorito!♥


Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.



A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.

Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.

Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver "a missa do galo na Corte". A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.

— Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.

— Leio, D. Inácia.

Tinha comigo um romance, Os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D'Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.

— Ainda não foi? perguntou ela.

— Não fui, parece que ainda não é meia-noite.

— Que paciência!

Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro, ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:

— Não! qual! Acordei por acordar.

Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma cousa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer Já disse que ela era boa, muito boa.

— Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.

— Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.

— Quando ouvi os passos estranhei: mas a senhora apareceu logo.

— Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.

— Justamente: é muito bonito.

— Gosta de romances?

— Gosto.

— Já leu a Moreninha?

— Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.

— Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?

Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.

"Talvez esteja aborrecida", pensei eu.

E logo alto:

— D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...

— Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio, são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?

— Já tenho feito isso.

— Eu, não, perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.

— Que velha o que, D. Conceição?

Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou concertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas idéias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.

— É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.

— Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. S. João não digo, nem Santo Antônio...

Pouco a pouco, tinha-se reclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros, e menos magros do que se poderiam supor.

A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia, contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras cousas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:

— Mais baixo! mamãe pode acordar.

E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido: cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou, trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Conceição disse baixinho:

— Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve, se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.

— Eu também sou assim.

— O quê? perguntou ela inclinando o corpo, para ouvir melhor.

Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti-lhe a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.

— Há ocasiões em que sou como mamãe, acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me e nada.

— Foi o que lhe aconteceu hoje.

— Não, não, atalhou ela.

Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela rnissa. Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria e eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:

— Mais baixo, mais baixo...

Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver rnelhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma cousa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.

— Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.

Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava "Cleópatra"; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.

— São bonitos, disse eu.

— Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.

— De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.

— Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso, mas eu penso muita cousa assim esquisita. Seja o que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.

A idéia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.

Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.

— Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse consigo.

Concordei, para dizer alguma cousa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a idéia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.

Chegamos a ficar por algum tempo, — não posso dizer quanto, — inteiramente calados. O rumor único e escasso, era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo. Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: "Missa do galo! missa do galo!"

— Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus.

— Já serão horas? perguntei.

— Naturalmente

— Missa do galo! — repetiram de fora, batendo.

— Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus até amanhã.

E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.


Domínio Público

18 de mai. de 2012

Resenha: Mulher Perdigueira - Fabrício Carpinejar




Em páginas delicadas de dor, de amor, de silêncio e prazer, Carpinejar faz o que parece impossível: se define.
Depois de receber o Prêmio Jabuti 2009, categoria Contos e Crônicas, e surpreender os leitores com o livro vanguardista de Tweets, Fabricio Carpinejar apresenta sua nova coletânea de crônicas: Mulher Perdigueira .


Na obra, o autor cria sentido para o que não se vê. Aquilo que não tem cor, mas colore, que não tem peso, mas bate, que não tem forma, mas gosto. Aquilo que é o que faz as pessoas diferentes, que rasga histórias, que aproxima beijos, que enlaça almas, que constrói e destrói inversamente. Fabrício fala daquilo que importa.

Em Mulher Perdigueira, ele está mais maduro e sua racionalidade serve para reforçar o escape de quando ele ultrapassa a forma coerente e surge de novo puro sangue para fluir, dualizando a configuração das coisas, arrepiando nas entrelinhas, tirando o fôlego no espaço entre as palavras e morrendo de amor a cada ponto final.

[americanas.com.br]


Uma delícia de leitura! Se diziam que o Chico Buarque era o autor de Alma feminina, nesse patamar ele agora tem companhia!
Dono de uma prosa poética ímpar, Carpinejar me encanta com suas tiradas sensuais e eróticas, mas sem perder a ternura! ;oD


26 de abr. de 2012

Felicidades em muitas pequenas doses




Sinopse:
O presente livro apresenta uma coletânea de mais de 80 crônicas. A autora visa a materializar as angústias e os anseios da sociedade, abordando temas diversos e cotidianos, incluindo questões consideradas universais, como o amor, a família, a amizade, a mulher, entre outros temas.




Crônicas que nos mostram, com a simplicidade e grandeza da escrita da Martha o quanto é rico o universo das "pequenas felicidades". Como é possível ser feliz em cada pequeno momento de nossa vida.

Leia um pouco dele aqui.