15 de abr de 2014

Dentro de ti ver o mar - Inês Pedrosa






Quem me acompanha há mais tempo por aqui e ou pelo canal no Youtube, já sabe do amor que nutro pela escrita da linda Inês Pedrosa, autora portuguesa que descobri em 2003 quando me deparei com maravilhoso "Fazes-me falta", seu romance de estreia no Brasil. E desde que soube do lançamento de seu último título em Portugal, fiquei em cólicas, torcendo pra que ele chegasse logo por aqui, o que só aconteceu em setembro de 2013. Comprei logo o meu, mas acabei protelando a leitura, no melhor estilo "felicidade clandestina", aguardando mais um pouco pelas surpresas e emoções que certamente sentiria ao ler mais esse romance dela.
Para quem ainda não conhece [e isso é uma falta horrível! rs], Inês Pedrosa é portuguesa, nasceu em 1962, e trabalhou em diversos jornais, revistas, em rádio e televisão, tendo recebido vários prêmios de jornalismo. É, desde fevereiro de 2008, diretora da Casa Fernando Pessoa. Publicou dezoito livros, entre os quais se destacam seis romances: A instrução dos amantes (1992), Nas tuas mãos (1997), Fazes-me falta (2002), A eternidade e o desejo (2007), Os íntimos (2010) e Dentro de ti ver o mar(2012).


"Acordava no poço da noite com o coração enforcado naquela frase.
– Entrar em ti e dentro de ti ver o mar.
O ruído dos aviões já não a despertava. Habituara‑se. Gostava do som dos motores no céu, provocava‑lhe uma sensação de liberdade. Vivia no extremo onde nada evolui. Existe um momento em que o amor deixa de ser uma narrativa e se imobiliza. Tentara livrar‑se da frase apagando o homem que a proferira. Mas a água do amor foge e volta, pesada, carregada de restos."

Dentro de ti ver o mar está totalmente impregnado com o estilo de escrita da Inês, que andou modificando um pouco no romance anterior, "Os íntimos". Podemos encontrar nele as cenas de amor que só ela é capaz de criar, as personagens construídas de forma tão intensa e totalmente verossímil, as questões políticas muito bem inseridas no contexto do romance bem como a globalização, e apesar de a questão da identidade ser a mola propulsora do romance, nele encontramos a paixão, o amor e a solidão em completa sintonia com o ritmo de um fado bem cantado e bailado.

São três as protagonistas desse romance, três mulheres que lutam contra e desviam-se das regras impostas em busca de si mesmas, de sua voz, cujas vidas se entremeiam de uma forma forte, suave e cheia de amor. A fadista Rosa, que se entrega a uma paixão avassaladora por Gabriel, um homem casado e incapaz de assumir seus reais sentimentos, que vive um casamento pontuado pelo abuso emocional com que lida com a esposa e a conveniência de usar os filhos como desculpa para manter-se ligado ao casamento. Depois de perder a mãe, e diante de uma revelação que a deixa sem chão, Rosa sai à procura do pai que nunca conheceu. 

Seu caminho se cruza com o de Farimah, engenheira iraniana que se casa com um homem soropositivo para escapar de um casamento forçado pelo pai, e que abandona um bom emprego para conhecer a liberdade em Portugal, mas qual será essa liberdade, onde ela se encontra? E é nesse sentimento de desorientação que poderemos acompanhar os passos dessa forte iraniana!

E também temos Luísa, filha bastarda de um aristocrata, que sempre sofreu os abusos da madrasta e da irmã, mulher forte e independente, que gosta de homens ricos mas que não quer saber do apego e que quando jovem abriu mão da própria filha. E é através de Luisa que Farimah consegue se estabelecer em Portugal.

Inês Pedrosa tem uma relação de carinho extremo pelo Brasil, e uma parte de seu romance é ambientado no Rio de Janeiro, onde fala do país e dos nossos costumes com um carinho e desvelo quase palpáveis! Um outro ponto de destaque que dou ao livro, e creio ser a primeira vez que a autora o usa, é o fato dela se inserir na história como personagem, como uma espécie de coro, muito utilizado na tragédia grega, mas de uma forma clara, nomeada inclusive como autora. Achei esse recurso incrível!

Sentir a ousadia da autora em criar uma fadista que destoa em suas letras do tradicional fado português é outro ponto que me cativou! Rosa é uma fadista erótica, fazendo do sexo uma espécie de sub-mote para o romance. É em suas letras que ela lança a sua dor e desejos, tirando a característica tradicional do fado, que é um certo fatalismo reconfortante, para dar a ele o tom imprevisível das paixões e do sexo.

Ler um livro da Inês é como mergulhar numa mar de sensações tão fortes e claras da mesmo forma que são sutis e elegantemente poéticas. E Dentro de ti ver o mar é um convite ao bailado de um fado sensual, com suas paixões, dores, fomes, desejos, culpas, reconciliações, perdas e sobretudo com o mergulhar em si mesma!


"As palavras ficam sempre aquém da dor."

♥♥♥♥



Título: Dentro de ti ver o mar
Autora: Inês Pedrosa
Editora: Alfaguara
Ano de lançamento: 2013
Número de páginas: 256



4 comentários:

Pipa disse...

Inês é maravilhosa, né, patty? Gosto muito dos livros dela e gostei especialmente deste último, título mais lindo não poderia ser.
ótima sua resenha :)

beijo!

Pipa

Melissa Padilha disse...

Meodeusdocéu dona Patricia, preciso ler urgente essa mulher!!!! Vc fala com tanto amor pelos livros dela que não tem como não ficar desesperada pra ler!!

Tá na lista esperando para ser lida !
bjos

Patrícia Di Carlo disse...

Mel, Inês tem um Q que nos prende, sua prosa é de uma poesia tão natural e real que é impossível não se identificar! leiaaa!!! ;oD

Xerinhos!

Patrícia Di Carlo disse...

Pipa, eu não consigo me imaginar mais sem livros da Inês, sério... rs E esse foi mega blaster!! ;o)

Xêros, lindeza! ♥