1 de fev de 2013

Resenha: A Borra do Café - Mario Benedetti


Para onde vão as névoas, a borra do café, os almanaques de outros tempos?
 Julio Cortázar


Mario Benedetti, que na verdade assinava Mario Orlando Hardy Hamlet Brenno Benedetti Farrugia, foi um  escritor, poeta, ensaísta uruguaio, nasceu em Paso de los Toros na década de 20 e faleceu em 2009, com 88 anos, em Montevidéu. Considerado um dos principais autores uruguaios, escreveu mais de 80 livros entre poesia, romances, contos e ensaios, bem como roteiros para cinema.

Meu primeiro contato com Benedetti foi em meados de 2012 e totalmente indireto; se deu através dos vídeos da Denise Mercedes, no seu canal Meus olhos verdes. Lembro-me que ela falou com tanta emoção sobre o livro Primavera num espelho partido, que fiquei mega curiosa em conhecer a escrita desse autor, tanto que o coloquei na minha lista de autores para ler em 2013, como mostrei nesse vídeo.
Como sua obra mais vasta foi no gênero da poesia, acabei por começar a lê-lo pelo O Amor, as mulheres e a vida - Antologia de poemas de amor, que achei uma delícia e que ainda quero falar melhor sobre ele.
Mas foi com A Borra do café, que me iniciei em sua prosa, e ah, que prosa...

A Borra do café é um daqueles livros que nos levam pelas mãos de um lugar a outro e a gente se deixa levar com um sorriso nos lábios de puro deleite!
Com pinceladas autobiográficas, Benedetti serviu-se livremente de suas lembranças da infância para compor com maestria o mosaico de uma época e a formação da personalidade e sensibilidade de Claudio, o protagonista do romance,  uma espécie de alter-ego de Benedetti.

Narrado em sua maior parte em primeira pessoa, por Claudio, o livro traz também a voz do pai de Claudio bem como um narrador à parte. São 48 capítulos breves, quase pequenas crônicas independentes, voltados, em sua maioria, para fatos marcantes da infância e da juventude de Claudio, como as muitas mudanças de casa, as brincadeiras proibidas e escondidas no parque Capurro, o encontro com o cadáver de um mendigo nesse mesmo parque, a passagem do dirigível alemão Graf Zeppelin por Montevidéu, a morte prematura da mãe, a iniciação sexual com uma moça mais velha, os primeiros amores, as primeiras leituras, as amizades e promessas de nunca se afastarem, o impacto da guerra que chega aos pedacinhos, a notícia  da bomba de Nagasaki, que mexe com ele ainda mais que a de Hiroshima.

“Quando os anos se somam, a gente começa a ter noção de que o tempo foge, e talvez por isso alimente o autoengano de que escrever sobre o cotidiano pode ser uma forma, por mais primitiva que se queira, de frear esse descalabro. Mas não se consegue freá-lo, claro. Nada nem ninguém é capaz de reter o tempo”

A ideia de que o futuro de uma pessoa possa estar inserido no passado é a grande premissa, o eixo de A Borra do café. Como o próprio título acena, Benedetti, de forma indireta, lança mão da tradicional arte do Oriente Médio de prever o futuro. É como se o autor, já com seus 70 anos quando escreveu o romance, quisesse explicar o futuro com as mesclas de um passado tão rico e cheio de amores, fantasias, descobertas, medos e amizades. Mas sem a carga piegas ou de emoções apelativas, tudo extremamente bem dosado, como o humor leve e o suave lirismo, tão característico ao autor.

Mas ainda há a forma como Benedetti se relaciona com as personagens femininas, a forma sensível e poética como as descreve e como transfere esse amor, respeito e sensibilidade pra Claudio é simplesmente emocionante. Uma das partes mais bonitas que achei foi quando ele descreveo reconhecimento dos corpos apaixonados, comparando-os ao tango:

“Assim, os sucessivos tangos daquela noite, que não foi mágica, e sim terrestre, permitiram que meu corpo e o de Mariana se conhecessem e se desejassem, se complementassem e se necessitassem. Quando, três dias depois, nos despojamos de toda a roupagem e nos vimos tal e qual éramos, a nudez textual nos trouxe poucas novidades. Desde o quinto tango, nós já sabíamos de cor. Algum detalhe novo (um sinal, sete sardas, a cor dos pelos fundamentais) era pouco menos que subsidiário e não modificava a imagem primeira, a essencial, aquela que a disponibilidade sensitiva de cada corpo havia transmitido aos arquivos da imaginação. A memória do corpo não cai nunca em minúcias. Cada corpo recorda do outro o que lhe dá prazer, e não aquilo que o diminui. É uma memória entranhada, mais, muito mais generosa do que o tato já desgastado das mãos, excessivamente contaminadas de rotina cotidiana. O peito que toca peitos, a cintura que sente cintura, o sexo que roça sexo, toda essa saborosa rede de contatos, embora se verifique através de sedas, casimiras, algodões, fios ou tecidos mais rústicos, aprendem rápida e definitivamente a geografia do território, que chegará ou não a ser amado, mas que por enquanto é fervorosamente desejado.”

O futebol, o amor, a amizade, a guerra, o sexo, a política, os estudos, a literatura, a arte, ou seja, a descoberta do mundo, de si mesmo, a construção de um ser humano sensível, ético, solidário, capaz de sofrer diante das misérias alheias;  tudo isso aparece na borra do café de Claudio, além de Rita, a menina da figueira, uma menina que ele não sabia se existia ou se era fruto da sua imaginação. E na vida de Claudio tudo tem a sua hora mais que certa: 3h10 da tarde!

A Borra do café é um livro leve, incrivelmente bem escrito e delicioso, que nos leva a percorrer a nossa própria infância e nos faz achar pontos em comum com Claudio e mais ainda, nos deixa ainda mais famintos pelas letras de Benedetti.




Título: A Borra do café
Autor: Mario Benedetti
Tradutor: Joana Angélica d’Avila
Ficção
ISBN: 9788579621468
Lançamento: 01/08/2012
Editora: Alfaguara
Número de páginas: 192



5 comentários:

Juliana disse...

Delicinha, né?

Agora tem que lê A Trégua. =)

Patrícia Di Carlo disse...

Sim sim, Juliana, agora quero A Trégua, Primavera num espelho partido e Biografia para encontrar-me!! ;oD

Xerinhos
Paty

Melissa disse...

Olá!
definitivamente preciso ler Benedetti, nunca li nada dele e depois de tantas indicações não tenho mais como fugir.
Parece ser uma leitura deliciosa!
abraços
Melissa

Patrícia Di Carlo disse...

Melissa, leia sim, a escrita dele é incrível e a gente nem vê a hora passar! ;)

Xêros
Paty

Anônimo disse...

Eu preciso muito desse livro, se alguém tiver esse livro pra me passar por favor meu e-mail eh esse: tay-pri@hotmail.com