14 de fev de 2014

A elegância do ouriço - Muriel Barbery






Há certos livros que, antes mesmo de lermos qualquer coisa a respeito, temos a nítida e certa impressão de que se tornarão livros mega importantes em nossa vida. E devo dizer que, mesmo sentindo essa afinidade, acabei enrolando por 4 anos a leitura desse livro, porque tinha certeza de que ele mexeria muito comigo, e acredito que, inconscientemente, acabei esperando a hora certinha pra lê-lo. Sim, sou dessas que acredita que há uma hora certa pra tudo, até mesmo pra quebrar as regras, pra burlar a segurança e se desfazer de algumas amarras! 


A elegância do ouriço é um romance que nos cativa primeiramente pela poesia do título e pela escrita requintada da Muryel, e, na sequência, caímos definitivamente de amores pela  narrativa que é emotiva, divertida, sarcástica e irônica. Todo o romance é basicamente centrado no cenário do edifício luxuoso, situado na Rue de Grenelle, 7, em um sofisticado bairro de Paris, onde residem as duas narradoras do romance. 

"Se a existência é um absurdo, ser brilhantemente bem-sucedido tem tanto valor quanto fracassar"

Paloma é uma adolescente de 12 anos, esperta e que tem um conhecimento superior com relação às crianças da sua idade; observadora, percebe mais do mundo à sua volta do que deixa transparecer, e por isso tem uma grande tendência à filosofar e à melancolia. Por achar que a vida não tem sentido, ainda mais pela família que tem e pela sociedade que habita, Paloma decide que se até seu próximo aniversário não achar um sentido que seja, para a sua vida, irá cometer suicídio. 

"por fora, é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza [...] dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes".

Renée, que se auto-define como "viúva, baixinha, feia, gordinha", é uma jovem senhora de 54 anos e concierge, uma espécie de zeladora,  há 27 anos, do luxuoso edifício. Seus patrões a enxergam de acordo com o protótipo de concierge que desenharam: pouco inteligente, sisuda, de vida sem graça, sem nenhum requinte e insignificante, o que a personagem faz questão de reforçar, esforçando-se em ser o reflexo do que justamente querem ver. No entanto, o que ela se esforça tanto para esconder é que, mesmo em sua real simplicidade, ela é uma mulher altamente culta, amante das artes, de literatura e filosofia. Uma mulher de gosto refinado.

É no diálogo alternado com as narradoras que o romance se apresenta e que também vamos conhecendo um pouco mais sobre os moradores do prédio e também sobre mais da vida de Renée e Paloma, que, como vamos percebendo, ao longo da leitura, têm muito mais coisas em comum do que a localização da moradia, como o trabalho hercúleo em fazer-se invisível para os outros, e a forma como se auto-protegem para que ninguém venha descobrir sobre o seu rico interior, ou o quanto são sensíveis e inteligentes.

As duas, cada uma a sua maneira, buscam uma espécie de legitimação para a existência, seja buscando respostas em questões sobre o "movimento do mundo" como faz Paloma em seu diário, ou questionando sobre o que é a arte, como Renée. E é nesse ponto que a resposta para as investigações das duas se dá com a chegada de um terceiro personagem, o japonês Kakuro Ozu. Um senhor sexagenário, fino e delicado, amante das artes e da literatura, e por ser estrangeiro e alheio a muitos dos ditames culturais do Ocidente, totalmente abstraído de certos protocolos preconceituosos,além de ser um atento observador, ele acaba por descobrir a inteligência de Paloma e com a ajuda desta, confirma suas suspeitas sobre o refinamento e a inteligência de Renée, dando oportunidade para que ambas manifestem, livres de qualquer tipo de censura, suas qualidades mais recônditas.

Além do romance ser recheado de observações muito bem humoradas e mordazes até, há ainda rebuscadas observações sobre arte, filosofia, psicanálise, literatura e tudo muito bem amarrado ao preciosismo do vocabulário da autora, que é professora de filosofia e também conhecedora da cultura japonesa, haja visto que mora, desde 2008, em Kyoto, no Japão. E para quem leu seu primeiro romance, A morte do Gourmet, há ainda a surpresa de nos depararmos novamente com alguns personagens e situações desse romance, já que A elegância do ouriço é ambientado no mesmo edifício onde o famoso gourmet, em questão, morava com sua família.

A elegância do ouriço é, sem dúvida, um livro intenso em todos os sentidos; cheio de análises filosóficas, artísticas e literárias, onde percebemos claramente a força que damos ao medo do julgamento de terceiros e de como somos capazes de nos fechar em nós mesmos em decorrência desse medo. Mas ele também nos mostra que tudo é uma questão de atenção, cuidado, respeito e de nos permitirmos ver camélias... ;o)


"(...) meu pensamento profundo do dia: é a primeira vez que encontro alguém que procura as pessoas e que vê além. Isso pode parecer trivial, mas acho, mesmo assim, que é profundo. Nunca vemos além de nossas certezas e, mais grave ainda, renunciamos ao encontro, apenas encontramos a nós mesmos sem nos reconhecer nesses espelhos permanentes. Se nos déssemos conta, se tomássemos consciência do fato de que sempre olhamos apenas para nós mesmos no outro, que estamos sozinhos no deserto, enlouqueceríamos. Quando minha mãe oferece petisfours da casa Ladurée à sra. de Broglie, conta a si mesma história de sua vida e apenas mordisca seu próprio sabor; quando papai toma o café e lê o jornal, contempla-se num espelho do gênero manual de auto-convencimento; quando Colombe fala das aulas de Marian, deblatera sobre seu próprio reflexo, e quando as pessoas passam diante do concierge, só vêem o vazio porque ali não se reconhecem. Do meu lado suplico meu destino que me conceda a chance de ver além de mim mesma e encontrar alguém."

♥♥♥♥






A elegância do ouriço
Autor: Muriel Barbery
Tradução: Rosa Freire d'Aguiar
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2008
Páginas: 352



8 comentários:

Maria Capitu disse...

Poxa! Eu devia ter lido! Hahahahahahahaha
Paty, cê é tão linda, cara! <3

Livros Incríveis disse...

Não tem como não amar, não tem!!!!!
Linda resenha, linda!

Michelle disse...

Esse livro é maravilhoso mesmo. Quando terminei de ler, tinha tanto post-it marcando meus trechos favoritos que parecia um livro fantasiado para o carnaval. O filme também vale a pena, viu?
beijo

Tati disse...

Que lindo o que você escreveu e os trechos que você selecionou Paty <3
Sabe que pra mim contou muito ter chegado ao livro sem saber de nada, foi uma surpresa tremenda, porque não tinha ideia do que e tratava quando ela diz A elegância do ouriço... descobrir foi muito bom!
É um livro destruidor, mas que nos faz ficar com as personagens pra sempre!
Agora quero ler Morte do Gourmet, não sabia que tinha semelhanças na ambientação!
Beijo!

Melissa Padilha disse...

Pati, resenha fantástica como sempre !
Esse aqui tá na fila de leitura graças a ti.
bjooss

Eduarda Sampaio disse...

Paty, eu chorei taaaanto no final desse livro. Torci tanto por essas duas e me identifiquei tanto com elas. Às vezes a gente cansa de se justificar o tempo todo para os outro e prefere se fechar dentro de nós mesmos, né? Eu nunca tinha lido um livro que falasse tão bem sobre isso.
Sua resenha está perfeita! =D
Beijo!

Aline Aimée disse...

Ganhei esse livro da Denise. Achei o título e a capa lindos! Agora estou morrendo de curiosidade depois de tudo o que vc disse.
Gosto de enredos densos. Vou adiantá-lo na fila!
;)

Beijinhos!

Sonia Regina Rocha Rodrigues disse...

Livro maravilhoso!É um dos meus preferidos, daqueles que a gente levaria para uma ilha deserta.