30 de jan de 2014

A contadora de filmes - Hernán Rivera Letelier






De uns tempos pra cá eu me peguei mais atenta ao fato que desatentei completamente da sétima arte, sim, do cinema, dos filmes, das películas que sempre gostei tanto. Há cerca de dois a três anos que ver um filme tem sido algo muito esparso na minha vida, e, sinceramente, não estou gostando, não mesmo. Mas sei que esse já é um fato recorrente na minha vida, já que uma vez abandonei os livros pelos filmes, enfim... que venha o meio termo, e pra ontem, por favor!

Então, quando soube de um livro que contaria uma história que teria o cinema envolvido, eu fiquei bem interessada, ainda mais por ser indicação dos já supracitados por aqui Denise e Kalebe! Mas só no final de 2013 é que acabei me rendendo e aproveitando a promoção da Cosac pra garantir o meu exemplar.
Ao apagar as luzes todos se endireitavam e ficavam duros na frente da tela. Eu não. Eu virava a cabeça para ver aparecer o raio de luz que saía pelas janelinhas do quartinho de projeção e percorria o espaço sobre nós até se chocar com a tela e explodir em imagens e sons. (…). Eu achava um prodígio que aquele jorro de luz pudesse transportar coisas tão impressionantes como trens perseguidos por índios a cavalo, barcos de piratas em mares de tormenta e dragões verdes exalando fogo por suas sete cabeças."

Como não se apaixonar de cara pela Maria Margarita, que além de narradora é também a protagonista dessa novela curtinha do chinelo Hernán Rivera Letelier, impossível!! A contadora de filmes tem como cenário o deserto chileno [acredito que seja o Atacama, já que ele não é citado no livro] que abriga um povoado de mineiros que sobrevivem da extração de salitre. Nessa seca ambientação, onde a vida segue arenando o corpo e as emoções, como o deserto e o próprio salitre, onde as possibilidades de diversão são quase nulas, que nasce e cresce Maria Margarita, caçula de uma família que tem mais 4 filhos, e que, juntos, vêm na pequena sala de cinema que existe no lugar a residência de suas esperanças e sonhos, é lá que se encontra a diversão daqueles que ainda podem pagar para assistir a uma fita. 

Quando ela [a mãe da personagem] nos abandonou, do mesmo jeito que meu irmão começou a gaguejar eu me cobri de piolhos brancos. As vizinhas diziam que esse tipo de piolho aparecia quando a gente tinha alguma dor na alma. E coo a dor era pela minha mãe, comecei a comer os piolhos de amor por ela.
Tanto assim eu amava minha mãe.
Tanto assim eu sentia falta dela.”

Aos dez anos de idade, após vencer um concurso idealizado pelo pai, Maria passa a assistir e a contar em casa, para o pai e os irmãos, os filmes que estavam em cartaz no cinema; já que, após sofrer um acidente de trabalho, o pai de Maria Margarita, fica paralítico da cintura para baixo e só garante, a partir de então, o seu sustento e o dos filhos graças à pensão que passa a receber da mineradora, mas apenas por ter sido um trabalhador que nunca faltara ao serviço; a mãe, tendo se casado muito jovem, como era comum naqueles tempos, e provavelmente por se ver cansada da má sorte da vida, abandona o marido e os filhos. Sendo assim, fica fácil entender porque era impossível permitir que todos frequentassem o cinema da mesma forma que faziam antes do acidente do pai.
 
Sua filha é uma fada contando filmes, vizinho, e sua varinha mágica é a palavra. Com ela, nos transporta.”

Logo a desenvoltura, boa memória e a criatividade de Maria Margarita se fazem notórios entre os vizinhos e mais adiante em todo o povoado, que acaba por tornarem-na a contadora oficial de filmes, e o melhor, pagando por seus serviços! Maria não apenas narrava os filmes, ela interpretava, apropriava-se das personagens e das histórias, cantava também, já que via a muitos musicais e, não raro, principalmente, quando antevia uma ponta de dor que o filme poderia trazer ao pai, recriava seus finais.E com toda essa notoriedade, sentindo-se realmente uma diva no auge do seu sucesso, acaba por mudar seu próprio nome para nada mais nada menos que Fada Docine.

No entanto a vida real não é tão bela e nem sempre tem o final feliz como no cinema... Muitos são os dramas, conflitos e dificuldades porque passamos, e nessa história não é diferente; após o término de sua apresentação, a vida retoma seu curso, com suas dores, dificuldades, vazios e lembranças, que atingem Maria Margarita em cheio, e nos mostrando que com sua escrita clara, direta e nada melosa, o autor nos brinda com uma personagem forte, que se entrega aos seus sonhos sem lamúrias e que simplesmente aceita a vida com uma espécie de resignação suave, doce... E o autor ainda fala, sem cair no chavão panfletário, dos aspectos sociais e políticos do Chile da década de 50, da queda do presidente Allende; e vamos lendo tudo isso como se estivéssemos diante de uma tela de cinema, pois a edição da Cosac Naif nos permite, lindamente, esse delicioso devaneio...


♥♥♥♥







Título:A contadora de filmes 
Autor: Hernán Rivera Letelier
Tradução: Eric Nepomuceno 
Editora Cosac Naify
Páginas: 112 
Ano: 2012


2 comentários:

Livros Incríveis disse...

Eu tambem troquei filmes por livros... tenho que voltar pelo menos um pouco. Agora quanto a essa belezura de livro, eu só preciso dele em minhas mãos, só... e me deleitar inteiramente perante o pouco da beleza que vi aqui :)
Sem mais.
Vou ler de novo
beijo

lualimaverde disse...

Mais um que também comentei lá no blog e também li em 2012, Paty! Um livro simples, mas muito tocante, estou ansiosa para ver a adaptação para o cinema. =)
Beijo!