20 de ago de 2013

Resenha: É isto um homem? - Primo Levi





Cedo ou tarde, na vida, cada um de nós se dá conta de que a felicidade completa é irrealizável; poucos, porém, atentam para a reflexão oposta: que também é irrealizável a infelicidade completa. Os motivos que se opõem à realização de ambos os estados-limite são da mesma natureza; eles vêm de nossa condição humana, que é contra qualquer "infinito". Assim, opõe-se a esta realização o insuficiente conhecimento do futuro, chamado de esperança no primeiro caso e de dúvida quanto ao amanhã, no segundo. Assim, opõe-se a ela a certeza da morte, que fixa um limite a cada alegria, mas também a cada tristeza. Assim, opõem-se as inevitáveis lides materiais que, da mesma forma como desgastam com o tempo toda a felicidade, desviam a cada instante a nossa atenção da desgraça que pesa sobre nós tornando a sua percepção fragmentária, e, portanto, suportável."


Esse trecho de É isto um homem?, do italiano Primo Levi, foi citado uma vez pela minha amiga Agna Farias, e logo eu tive a certeza de que precisaria ler esse livro, mas que também não poderia ser um desses livros que eu pego à qualquer hora e ou em qualquer lugar. Ainda não considero a hora escolhida para lê-lo como a melhor, mas ainda assim o li e tento, até agora, digerir ao menos um bocado pra conseguir ao menos falar um pouco sobre ele.

Primo Levi foi um italiano judeu que participou de um pequeno grupo de resistência anti-nazista e foi preso pela milícia em dezembro de 1943. Ao se confessar judeu foi deportado para um campo de concentração perto de Auschwitz. Em pleno inverno se viu obrigado a aprender a sobreviver num ambiente inóspito e a se considerar um felizardo, por fazer parte do grupo "economicamente aproveitável", pois era o momento que o regime hitlerista mais precisava de trabalhadores, mesmo que forçados.

Em É isto um homem?, Primo Levi procurou evitar as repetições sobre o tema dos horrores do holocausto, pois muito já se disse sobre o fato, como ele próprio explica no prefácio: “Ele não foi escrito para fazer novas denúncias; poderá, antes, fornecer documentos para um sereno estudo de certos aspectos da alma humana”; e acrescenta: “Acho desnecessário acrescentar que nenhum dos episódios foi fruto de imaginação”. Portanto o livro se trata de mostrar o cotidiano das pessoas que viviam em um campo de trabalho nazista, baseado em sua própria experiência. E ainda deixa claro a existência de outros campos, bem como a certeza de que a vida neles era bem diferente.

Ai de quem sonha! O instante no qual, ao despertar, retomamos consciência da realidade, é como uma pontada dolorosa. Isso, porém, raras vezes nos acontece, e os nossos sonhos não duram. Somos apenas animais cansados."

Primo Levi construiu um livro de memórias fragmentado, um relato forte e pungente, organizado de maneira a refletir, nas palavras dele, a dimensão finita de toda condição humana. O próprio título se justifica ao longo da narrativa onde o autor se pergunta se tanto os prisioneiros do campo quanto os carrascos, são de fato homens, haja visto o alto grau de degeneração da humanidade presente em cada um deles. 

As restrições do campo eram criadas com o intuito de realmente desumanizar o prisioneiro e tudo era feito para o cumprimento de tal propósito. Os prisioneiros perdiam seus pertences, tinham o cabelo e os pelos do corpo raspados, eram destituídos de seus próprios nomes e em seu lugar lhes eram dados números de matrícula pelo qual seriam identificados no campo. Todo o processo da perda da humanidade do prisioneiro passava também pela aceitação de sua condição; pois havia o momento em que o prisioneiro não se importava mais se iria ou não sobreviver, se estava ou não sentindo dor, se seu corpo latejava de fome ou frio.


Bem sabemos que amanhã será como hoje; talvez chova um pouco mais ou um pouco menos; talvez, em lugar de cavar o chão, iremos ao Carbureto para descarregar tijolos. Ou talvez amanhã termine a guerra, ou talvez sejamos todos mortos, ou transferidos para outro Campo, ou aconteça uma dessas reviravoltas que, desde que existe o Campo, são cada vez profetizadas como iminentes e certas. Mas quem é que pode, seriamente, pensar no dia de amanhã?"

A questão moral é também amplamente questionada no livro; onde o autor ainda deixa claro que não cabem julgamentos contra aqueles que estiveram no campo e cometeram ações que seriam certamente reprovativas fora dele, já que vivendo em condições desumanas, o único objetivo era o de se manter vivo ao menos até o próximo dia e como fariam para conseguir esse feito.

Em sua obra Primo Levi criou mais do que um documento histórico, de denúncia, mas um compêndio antropológico, psicológico do ser humano, uma narrativa literária que sem fazer uso de qualquer tipo de ficção nos faz refletir sobre o quão pode ser frágil e egoísta a existência humana e tão cheia de soberba e miséria! E respondendo à pergunta título, sim o homem é capaz de cometer as maiores atrocidades contra ele mesmo e contra o outro, afinal é o que continuamos a ver, ainda hoje, pelo mundo afora.

Aos pés da forca, os SS nos olham passar, indiferentes. A sua obra foi concluída, e bem concluída. Os russos já podem vir: já não há homens fortes entre nós, o último pende por cima das nossas cabeças e, para os outros, poucas laçadas de corda bastaram. Os russos podem vir: só encontraram a nós, domados, apagados, já merecedores da morte inerme que nos espera. Destruir o homem é difícil, quase tanto como criá-lo: custou, levou tempo, mas vocês, alemães, conseguiram. Aqui estamos, dóceis sob o seu olhar; de nós, vocês não têm mais nada a temer. Nem atos de revolta, nem palavras de desafio, nem um olhar de julgamento."


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Título: É isto um homem?
Autor: Primo Levi
Tradutor: Fábio Teixeira
Editora: Rocco
Ano: 2000
Páginas: 175


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