7 de abr de 2013

Resenha: Razão e Sensibilidade - Jane Austen


Há situações e momentos em nossa vida que tudo parece dar errado, as nossas tragédias pessoais se sucedem, tantas vezes, numa profusão que nos deixa à beira de desacreditar de tudo o mais, inclusive do amor, da esperança e da felicidade. Eu havia decidido me afastar um pouco da literatura que me fizesse ter algum tipo de catarse, de reencontro com as minhas pequenas e grandes tragédias pessoais. 

Permiti-me um período sabático, eu diria, onde a vida também me daria uma pausa...
Mas as coisas e a vida não funcionam assim, e quando você menos espera, uma parte ínfima de um enredo lhe faz transbordar, porque lhe remete bem ao cerne das suas fugas. Quando menos se espera, uma personagem lhe passa a perna e você mergulha de novo, e com ela, em toda a sua dor antiga e escondida.

É por isso que hoje não fujo mais, desisti depois que passei por livros como O Outro pé da sereia, do Mia Couto; Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios, do Marçal Aquino, O Sentido de um fim, do Julian Barnes; O Sonâmbulo Amador, do José Luiz Passos; e recentemente Teoria geral do esquecimento, do José Eduardo Agualusa. Porque nenhuma fuga adianta, as emoções surgem quando menos esperamos, independente de que estejamos com nosso corpo se defendendo ou não.

E como toda boa romântica, eu sempre busquei refúgio em finais felizes, porquê não? Mas ao mesmo tempo nunca gostei de romances melosos, e quando conhecei Jane Austen adentrei no meu paraíso particular de recuperação emocional! Jane é considerada uma das personalidades literárias mais influentes da Inglaterra, depois, apenas, de Shakespeare! Tanto que esse ano seu romance Orgulho e Preconceito completa 200 anos de publicação e foram feitas milhares de homenagens em toda Inglaterra e pelo mundo.

Toda a obra de Jane Austen se centra em aspectos cotidianos e aliados à vida real; é uma comédia de costumes, onde ironiza e critica a sociedade de costumes da época e ainda trazem uma mensagem instrutiva, sempre falando do bom comportamento. Seus personagens crescem e amadurecem ao longo da obra, adquirindo o que mais precisam, seja em termos morais e até mesmo materiais.

Em  Razão e Sensibilidade, ou Razão e Sentimento, Jane nos contará a história de duas irmãs: Elinor e Marianne Dashwood que são jovens, bonitas, inteligentes, instruídas e totalmente diferentes uma da outra no que tange aos sentimentos, à exposição dos mesmos e como reagem às situações impostas pela vida.
Após a perda do pai as meninas e a mãe, além de uma irmã caçula, vêm-se à mercê da boa vontade do irmão mais velho e filho do primeiro casamento do Sr. Dashwood, e do egoísmo e mediocridade da cunhada. Acabam deixando a propriedade onde nasceram e que tanto amam, e vão viver num pequeno chalé que alugam de um primo da Sra. Dashwood. 

Elinor se descobre apaixonada e correspondida ainda em Norland, enquanto Marianne só descobre a paixão depois da mudança. Ambas não falam claramente sobre o que sentem, mas cada uma se expressa e demonstra esse amor e paixão de maneira totalmente diferente. Enquanto Marianne é totalmente arrebatada pelas sensações e pelas artes, e se deixa vislumbrar em toda essa clareza, é ainda imparcial e falta-lhe polidez ao lidar com as pessoas quando essas não correspondem às suas altas expectativas; já Elinor é comedida, sempre tem um olhar voltado ao bem estar do outro, é a mulher mais racional da casa, apesar dos seus parcos 19 anos, além de ser totalmente diplomática.

Tudo em Razão e Sensibilidade é sutil, apesar de acharmos algumas coisas óbvias, como o próprio título, ao tentarmos encaixar as irmãs nele. Mas tanto a razão quanto a sensibilidade, a meu ver, permeia todas as personagens, e o que as diferencia é justamente na demonstração desses sentimentos. 

E mais uma vez Jane Austen me eleva, me conduz a esse meu paraíso, mas não sem antes me fazer recordar do quanto já estive Marianne e o quanto de Elinor há hoje em mim.
Jane será sempre meu porto feliz para dias de chuva e tempestades emocionais! ;oD


♥♥♥♥♥

E pra quem não resiste a um bom filme, fica a dica do excelente Razão e Sensibilidade, dirigido por Ang Lee em 1996, com Emma ThompsonKate WinsletHugh Grant.





Título: Razão e Sensibilidade
Autora: Jane Austen
Editora: BestBolso
Número de páginas: 399




3 comentários:

Agna Farias disse...

Ei querida!
Não há como fugir do que nos habita, né? No entanto, se por um lado machuca, por outro pode servir como advertência (para evitarmos repetições)e também como marcas que nos lembram nossa capacidade de superação ;)
Bom, da Jane só li "Orgulho e Preconceito" e me apaixonei! "Razão e sensibilidade certamente será o próximo, no entanto, quando o lerei é só com Deus... rsrsrsrs...
Abraços solidários de Minas e bom finalzinho de domingo procê =)

Tati disse...

Paty, Razão e Sensibilidade é um dos livros mais preferidos da vida e concordo com tudo que você disse: são personagens tão bem arquitetadas que é impossível não se enxergar um pouco em cada uma delas. Acho que como li o livro na adolescência, me apaixonei intensamente pela Marianne e sua impetuosidade, assim como o crescimento que ela teve.
Acredita que discuti bravamente com o meu marido por causa desse filme? Ele achou a Marianne covarde quando se casou e eu a defendi com unhas e dentes porque existe o tempo de correr atrás e existe o tempo de saber o que é sonho e o que é realidade... Mas na época foi engraçado porque eu fiquei bem brava com ele (imagina até onde o amor por um personagem nos leva kkkk).
Amei o texto e só discordo do fato de você continuar colocando resenha entre aspas. Para mim essa é uma resenha de página cheia ;)
Beijos!
Tati

Ana Ferreira disse...

Patrícia, conheci o seu blog hoje e estou simplesmente encantada com a força da sua escrita.
Primeiramente, a respeito das catarses literárias, acho que a compreendo. Penso, por outro lado, que estou sempre em busca de leituras catárticas. A literatura está para mim como uma arte suprema que deve, antes de tudo, perturbar. Se um livro me perturbou, para o bem ou para o mal, posso afirmar que ele foi bom.
Encheu-me de alegria, ainda, ver você citando "Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios". Que livro maravilhoso, não? Espalhemos Marçal por aí!
Agora, a respeito de "Razão e Sensibilidade", imagino que seja uma história muito interessante. De Austen, li apenas "Orgulho e Preconceito", mas constantemente me admiro com a eloquência dessa autora.
Beijão!