4 de dez de 2012

Fórum Entre Pontos e Vírgulas #1 - O outro pé da sereia - Mia Couto - Contém spoiler!


Essa resenha é totalmente direcionada aos participantes do Fórum Literário Entre Pontos e Vírgulas, que foi Idealizado pela Denise, do Blog e Canal Meus Olhos Verdes, com o intuito de discutirmos a fundo determinadas obras literárias.
E novembro foi o mês de início do fórum e O Outro Pé da Sereia, do Mia Couto, o livro escolhido para o debate.
Se você ainda não leu o livro, tem interesse e não quer saber a fundo do que se trata a história, aconselho a não ler, pois haverá um tanto bom de spoiler! ;oD


Em O outro pé da sereia, Mia Couto faz um relato poético, crítico e com uma pitada refinada de humor de uma Moçambique contemporânea e, ao mesmo tempo, que nos remete à tradição. Vai além do político-social, partindo da ideia de que é preciso que o africano encontre suas origens, tradições, crenças e cultos.
Além do choque cultural, da miscigenação e da globalização é representado os arquétipos do homem africano; e fica claro o laço entre o real e o fantástico durante todo o romance, laço esse tão bem amarrado que em muitas passagens fica difícil perceber onde começa um ou termina o outro!

Mia Couto também se utiliza da poesia para denominar suas personagens de forma que sua personalidade e  pontuação no romance fiquem bem marcadas, tornando essas personagens completas e bem complexas.
É a memória e as viagens interiores que guiam todo o romance, como fica bem claro nessa citação do narrador:

“a viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas
quando se atravessam as nossas fronteiras interiores” (p. 65)


A história se passa em  2 momentos históricos distintos, mas que se interligam pela personagem Mwadia Malunga e pela imagem da santa sem pé, que encanta e perturba os que estão perto dela. 

No primeiro plano, o contemporâneo, o relato se passa entre os espaços de Antigamente e Vila Longe.
É em Antigamente que encontraremos Mwadia e seu marido Zero Madzero, vivendo uma vida totalmente atípica: sem filhos, isolados e com o Zero silencioso "a esquecer-se", num processo de total anulação de si mesmo, advindo daí o duplo zero de seu nome.

Após o casal encontrar a imagem da santa eles retornam à casa do adivinho local, Lázaro Vivo, que é uma personagem totalmente emblemática! Ele é um homem dividido entre a sua crença e os esperados benefícios da tecnologia. Personifica ainda o consumismo mascarado pela globalização.
E é através de um diálogo entre Mwadia e Lázaro que podemos ver o primeiro conflito de identidade no romance: quando Lázaro diz a ela que, por ter vivido tanto tempo no seminário, Mwadia acabou por se esquecer como é ser africana; pois ela não se permite mais acreditar em crendices e lendas.

Outro ponto que chama atenção é o sonho de Zero, que se vê com as mãos em brasa e a voz de uma mulher com as mãos de água a aplacar a sua dor. Esse é um dos muitos sonhos que permeiam toda a obra e que mantêm uma relação forte com tudo o que a imagem da santa representa. E esse relato ainda nos reporta à carta que Nimi Nsundi à Dia Kumari, do 2º momento histórico do livro, relatando a ela a sua experiencia de rezar:

"De todas as vezes que rezei não foi por devoção. Foi para me lembrar. Porque só rezando me chegavam as lembranças de quem fui. (p. 113)"

E é nessa passagem que Mwadia observa, novamente, que Zero está a sangrar.

Já na segunda narrativa, logo de cara, nos deparamos com o choque cultural. Na nau de D. Gonçalo, que parte de Goa, na Índia, vão portugueses, africanos e indianos. O sincretismo religioso logo aparece, quando o escravo Nsundi diz que a imagem da santa é que se lançou ao pântano, porque ela quer ficar é lá, por ser Kianda, ou Nzuzu, uma divindade africana das águas.

E novamente vemos um sonho aliado à imagem. O Sacerdote Manuel Antunes (Manu Antun) sonha com a santa lhe prometendo um renascimento. E é à partir desse sonho que terá início, para o padre, uma crise religiosa e de identidade. Ele começa a abdicar da fé católica à medida que testemunha as atrocidades impostas aos escravos e os desmandos da Igreja em Goa.

Além de Manu Antun, as personagens Dia Kumari e Nsundi foram os que mais me tocaram, mesmo aparecendo brevemente no romance.  É após uma discussão que Dia acusa Nsundi de ter se rendido à fé e aos modos dos brancos cristãos, e após o suicídio de Nsundi é que Dia encontra sua carta, onde ele afirma:

"A verdadeira viagem é a que fazemos dentro de nós". (p.207)"

A travessia de Nsundi é de libertação, bem como vemos também, em analogia, a morte do elefante. É através dos rituais cristãos, da fé imposta que Nsundi descobre o que não é. Nesse trecho da obra identidade, pertencimento e auto-consciência chegam por um caminho inverso.

Da mesma forma Dia nos mostra que a condição da mulher que é esposa e escrava não difere, ainda mais quando consegue escapar, mesmo à "contragosto", das próprias tradições, como é o seu caso, que sobreviveu à pira funerária do marido morto e foi expulsa do convívio com os seus e da aldeia a que pertencia: 

"nem notou a diferença" pois "no mundo a que pertencia, ser esposa é um outro modo de ser escravo. (p. 108)"

Ao desembarcar em África, D. Gonçalo se vê diante da total depravação moral na ilha, descobre que eram os próprios negros que capturavam para vender e escravizar outros negros. E, mesmo tendo a mesma descoberta que Manu Antun, e tendo sido alertado por ele, diante dessa decepção total, D. Gonçalo se enclausura em si mesmo e em amargura até a morte.

Vila Longe é a realidade onírica do romance. Sintetiza todos os elementos, como amor, forças sobrenaturais, humor e lirismo. Aqui  a metáfora mais importante é o rio:

“a viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas
quando se atravessam as nossas fronteiras interiores” (p. 65)


 E é a caminho de Vila Longe que Mwadia reflete sobre a própria vida. Os laços de pertencimento perdidos na estadia longa em Antigamente, os medos de não mais reencontrar os seus:

"a vida de Mwadia fez-se de contra-sensos: era do mato e nascera em casa de cimento; era preta e tinha um padrasto indiano; era bela e casara com um marido tonto; era mulher e secava sem descendência. (p. 69)"

E estando junto aos seus familiares que Mwadia se reencontra com seu passado: Constança, a mãe, em constante lamúria por ter visto todas as filhas partirem, o padrasto, Jesustino, que a cada ano troca de nome com o intuito de enganar a morte. E a morte de sua tia, Luzmina, que desejava um destino diferente à Mwadia.

Mais um vez, os sonhos permeiam a história e nos elucidam algumas situações. Agora são os sonhos de Constança, o primeiro relata a sua ausência  de menstruação e como se sente liberta de todos os laços de obrigações; já o segundo,  sonha com a filha, que se torna a divindade das águas, por isso do seu nome Mwadia, que simboliza canoa. Ela é a ponte que viabiliza as histórias vividas em Vila Longe e a recuperação da trajetória desse povo.

É com a chegada dos americanos que à Vila Longe que se inaugura o tom cômico e irônico do romance. Mia Couto nos mostra a ansiedade do povo africano em inventar uma África que agrade ao gosto dos americanos. A comunidade [representada pelo barbeiro e ex-revolucionário Arcanjo Mistura, o ex-boxeador que só lutava com negros e funcionário do correio Matambira e o empresário e tio de Mwadia, Casuarino] se reúne com o intuito de forjar uma memória de escravidão, que já caíra no esquecimento pelas suas próprias contradições, como a captura e venda de negros pelos próprios negros.
O autor também deixa claro o comportamento interesseiro do Moçambicano que sabe tirar proveito do interesse estrangeiro que busca uma África exótica. E é essa estadia dos americanos que passa a ser a grande oportunidade de fonte de renda para a cidade desolada..

A relação que Benjamin Southman estabelece com o continente  encontra-se enraizada na visão romântica adquirida de uma matriz cultural euro-americana. Ele parte em viagem para a África por acreditar na necessidade de regresso à Mãe Pátria, para reconstituir-se, pois há muito que sentia-se "como um rio a quem houvessem arrancado a outra margem. (p. 137)".

Mia Couto também não deixa impune a ação internacional de ajuda aos africanos, mostrando que os afro-americanos também sobrevivem de super-faturamentos de contas para as ONGs internacionais.

Por sua percepção aguçada, Mwadia acredita que muitas viagens se cruzam a um só tempo no interior de sua casa, no entanto o esquecimento era também uma condição necessária:

"O serviço dos dias é apenas este: trazer os dias, levar dias. O Tempo existe para apagar o Tempo. (p. 136)".

Mia couto também ironiza e questiona alguns arquétipos do africano pela ideia de pureza, como as crendices, feitiçarias e a própria sexualidade como podemos ver no diálogo entre Constança e Rose, que coloca por terra alguns mitos como o da sexualidade exacerbada do homem africano:

"(...) os homens de Vila Longe acreditavam-se todos muito machos.
- Agora, que estou no fim da minha vida, posso confessar: as vezes que fiz amor com mais paixão foi com mulheres.
- Fomos ensinadas a esperar pelos homens. Mas essa espera demora mais que uma vida. Ninguém espera tanto assim por ninguém.
- Estou espantada, admitiu a brasileira.
- É o que lhe digo: os homens daqui são péssimos amantes.
- Não é isso que consta lá no Brasil.
- isso é porque não pedem a opinião das mulheres.(p. 178)"

Quando Mwadia é convoca a agradar os americanos com encenações de possessão, é que fica ainda mais claro como a característica religiosa se perde em detrimento da questão econômica.
Mas quanto mais ela se envolve na farsa e as leituras passam a fazer parte da farsa é que  ela descobre que

 " um livro é uma canoa. esse era o barco que faltava em Antigamente. Tivesse livros e ela faria a travessia para o outro lado do mundo, para o outro lado de si mesma. (p.238)",

o livro fazendo-se ponte e rio. E  essa descoberta é estendida à Constança também, que passa a sentir-se viva novamente, retomando, inclusive  a auto-estima, quando decide perder peso para facilitar sua subida à biblioteca. Aí somam-se o conhecimento oral ao escrito.

Ainda é Mwadia, em seus "falsos" transes, que traz à baila a temática da miscigenação o que desafia a busca de Benjamin por suas raízes, já que ele é, na verdade descendente de Nsundi e Dia Kumari. No entanto o americano se deixa enganar novamente quanto paga por um rito e uma nova identidade totalmente africana, quando é renomeado Dere Makanderi.

O Ponto alto da comicidade do romance se dá com as revelações da Rose, após a fuga de Benjamin.
Ao encarar que a história se repete e que não há como fugir do passado, Arcanjo Mistura é quem diz o mais necessário:

"esquecer para ter passado, mentir para ter destino. (p. 64)"

e aconselha Mwadia a ir embora de Vila Longe: 

"O mais triste na história é como tudo se repete, sem surpresa. Já viu como voltamos a dar tantas licenças aos estrangeiros? Ao menos, lá para onde eu vou, eu é que serei sempre estrangeiro. (p. 319)" 

E é através de Matambira que Mwuadia descobre que sua mãe engordara por conta das surras que levava de Jesustino e mais ainda, que era para que ele não se machucasse!
nesse confronto de verdades com a mãe que Mwadia se vê obrigada a enxergar que Zero está realmente morto, que fora esfaqueado por Jesustino por ciúmes de Mwadia, e como sugere ainda o diálogo da página 87, fica ainda mais claro que ela fora realmente molestada sexualmente pelo padrasto.

Dessa forma, de maneira imposta é que Mwadia confronta-se com toda a sua verdade. E ainda é a mãe quem lhe dá o rumo da ação necessária para que ela se liberte: a foto de Madzero para ser afixada por ela na parede dos ausentes, ou seja, a aceitação da morte.

A imagem de Nossa Senhora,  ou Kianda, resvala nos cursos das travessias. Os pés, que lhe faltara por gerações, são Mwadia que une e sustenta a travessia onírica e histórica. Há crenças que não precisam de base em solo firme, são como água, ar, vento e se equilibram no ventre das palavras e dos silêncios. 

Sua viagem de volta à Antigamente é o mesmo que retornar aos labirintos da alma, o que se reafirma na voz do narrador:

"a viagem termina quando encerramos as nossas fronteiras interiores. Regressamos a nós, não a um lugar. (p. 329)"


2 comentários:

ANTONIO disse...

É um livro deslumbrante. Muito bom o seu texto, sua leitura a cerca desse belo livro. Parabéns!

Patrícia Di Carlo disse...

Obrigada, Antonio! Foi uma dificuldade falar acerca desse livro devido ao envolvimento emocional que tive com ele... ;)