24 de ago de 2012

Resenha: A Solidão dos números primos - Paolo Giordano

A Solidão Dos Números Primos  -  Paolo Giordano

“Os anos de colégio foram como uma ferida aberta, que pareceu tão profunda a Alice e Mattia a ponto de nunca mais poder cicatrizar. Atravessaram aquele período em apnéia, ele recusando o mundo, ela sentindo-se recusada pelo mundo, e perceberam que não fazia grande diferença. Tinham construído uma amizade defeituosa e assimétrica, feita de longas ausências e muito silêncio, um espaço vazio e limpo em que ambos podiam voltar a respirar, quando as paredes de escola ficavam muito próximas, para ignorar o sentimento de sufocamento.” 

Posso dizer que sou uma leitora bastante comedida no quesito comprar livros por capa ou títulos. Mas o faço, admito, e muitas vezes sem querer ao menos ler a sinopse! Parece, e o é, muitas  vezes uma atitude, "suicida", mas enfim, sou assim e nem sempre a vontade de mudar é grande!
E quando vi a capa delicada desse livro de estreia, de um físico italiano, lindo e com um título pra lá de poético, eu não resisti! Foi amor à primeira vista e o coloquei na bolsa pra ser uma das minhas leituras de férias.
Não pensei em sofrer decepções, o que realmente não ocorreu, em momento algum da obra que se faz poética, envolvente, recheada de beleza e dor e que me trouxe um extremo prazer ao ler!
O fio condutor desse romance é a solidão, os encontros e desencontros de dois jovens que tiveram sua vida marcada por uma tragédia particular.

“Mattia achava que ele e Alice eram assim, dois primos gêmeos sós e perdidos, próximos, mas não o bastante para se tocar de verdade”.

Mattia, que tem o perfil de um gênio da matemática, convive com a culpa por ter abandonado a irmã gêmea, com problema mental e que o constrangia imensamente, sendo que o desaparecimento da criança desencadeia nele um comportamento arredio e autodestrutivo, fazendo-o  se refugiar cada vez mais na autoflagelação e na matemática, onde os sentimentos não são tão "importantes".
Alice, após sofrer um acidente de esqui, [era obrigada pelo pai a ter aulas] que a deixa manca, tenta disfarçar a insegurança e esconder da família a anorexia, onde se sente confortável, pois já se habituara a não receber alimento emocional de que tanto sua alma carecia. Ela se refugia na fotografia e ele na matemática. Ela tenta se ajustar ao mundo enquanto ele recusa qualquer tentativa de adaptação. No desvio de interesses, o encontro e o reconhecimento.

“Porque ela [Alice] e Mattia estavam unidos por um fio elástico e invisível, encoberto por um monte de coisas sem importância, um fio que podia existir apenas entre pessoas como eles: dois que reconhecem a própria solidão, um no outro”.

Da época da escola até a vida adulta mantêm uma relação singular, onde são parceiros mas não conseguem romper a barreira de seu casulo particular, tal qual os números primos. Se aproximam um do outro da forma mais honesta que conseguem e permanecem afastados dos outros. Pois nesse cenário há, como na vida,  outros personagens complexos, com suas emoções recalcadas, belezas e medos que se escondem em sentimentos de auto-suficiência e aparente estabilidade.

A narrativa se desenrola de forma cronológica [de 1987 à 2007], mas me senti, em algumas partes, um pouco perdida com relação a idade de cada um, mas nada que prejudicasse o desenrolar da leitura. As angústias, dificuldades, o sentimento de inadequação os acompanham em cada uma de suas fases, no mostrando uma estória triste, mas bela, onde a matemática fora usada como metáfora com maestria!

Leitura mais do que recomendada, mas se você é fã de sentimentos "mastigadinhos", de diálogos fáceis e inexistentes entrelinhas, te digo logo, não será tão fácil, mas vale o esforço! ;oD

Ah, ia me esquecendo, em 2010 a história foi adaptada para o cinema e manteve o mesmo título. Comecei a assistir e de cara fui gostando, mas desse eu falo noutra oportunidade!  

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