26 de ago de 2012

Aleatoriedade dominical: Milan Kundera



"Neste país, as pessoas não respeitam a manhã. São acordadas brutalmente por um despertador que interrompe seu sono com uma machadada e entregam-se logo a uma pressa funesta. Você pode me dizer que espécie de dia vai ser esse que começou com tamanho ato de violência? O que pode acontecer com pessoas às quais o despertador administra diariamente um pequeno choque elétrico? Acostumam-se a cada dia com a violência e desaprendem a cada dia o prazer. Creia-me, são essas manhãs que decidem o 
temperamento de um homem.
Bertlef segurou delicadamente Klima pelos ombros, fazendo-o sentar numa poltrona, e prosseguiu:
- E pensar que gosto tanto dessas horas matinais ociosas que atravesso lentamente, tal uma ponte ornamentada de estátuas, passando da noite à manhã, do sono à vida desperta. É o momento do dia em que ficaria muito reconhecido por um pequeno milagre, por um encontro inesperado que iria me persuadir de que os sonhos da minha noite continuam e que a aventura do sono e a aventura do dia não estão separados por um precipício."

 (Milan Kundera; A valsa dos adeuses)


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