12 de jan de 2014

O Pintor Debaixo do Lava-Loiças - Afonso Cruz





Desde o início de 2013 que estou a insuflar-me com o que tenho lido e ouvido falar sobre o escritor , ilustrador e músico português Afonso Cruz. Meu primeiro contato com seu nome foi através do canal da também portuguesa Inês, o Inês Books, e meu desejo foi crescendo ainda mais à medida que a ouvia falar de seus livros e por conseguinte ter descoberto na Déa Paulino, do blog Biofagia, outra apaixonada por suas letras. Para meu desconsolo, no Brasil, por hora, só há um livro do autor editado, que é o juvenil "Os livros que devoraram meu pai", que ainda não sei porque cargas d'água  não o adquiri!
Mas já no fim de dezembro de 2013 eu consegui uma cópia digital de "O pintor debaixo do lava-loiças" e resolvi que seria com ele que abriria, finalmente, o meu ano de 2014! Nada mais auspicioso do que começar um ano lendo um escritor que há muito queria descobrir e ainda assim mantendo num nível mediano a expectativa sobre a sua obra, e para tanto, procurei não ler nada a respeito desse romance, lancei-me a ele de uma forma quase nua e... que delícia!

"O Pintor Debaixo do Lava-Loiças" é um romance curto, de apenas 170 páginas e muitas delas com algumas ilustrações que são totalmente pertinentes ao contexto da história. E para nos contar essa história, Afonso Cruz se utiliza de capítulos curtos e uma narrativa simples, ou melhor, econômica, direta, porém bela, onde mescla, na medida certa, poesia e filosofia, já que ele se atém ao que é essencial e emocional na história.

Afonso Cruz nos conta a história de Jozef Sors, que nasce numa espécie de mansão, à época do império Austro-Húngaro, filho do mordomo, que é incapaz de compreender metáforas e de uma passadeira que aprecia em demasia a rotina, no final do século XIX. O proprietário da casa é Moller, um coronel do exército, que também tem um filho da mesma idade que Sors, e logo decide contratar um preceptor, um mentor para cuidar da educação dos garotos, sem distinção. No entanto, ao contrário do esperado, os garotos não se tornam amigos: Wilhelm, filho do patrão, é um leitor compulsivo, que considera que "a última página de um livro é a primeira do próximo"; Jozef, a seu tempo, é um desenhista convulso e delirante que não faz outra coisa senão desenhar por todos os lados, seja em papéis, paredes, terra ou até em pensamentos. Mas para o Havel Kopecky, o mentor, nada é mais importante do que ensinar-lhes filosofia desde cedo.

"- Parece-me uma grande felicidade que, quando se olhe para o mundo, pareça sempre que é a primeira vez que o fazemos."

O romance é repleto de personagens interessantíssimas, muito bem delineadas, mesmo que de forma econômica: o pai de Sors, um mordomo que não entende metáforas e abomina armas, o coronel sensível que enfeita os próprios cabelos com flores, a menina Frantiska, por quem Sors nutre um amor platônico, que é sua vizinha e que concebe estranhas teorias, enquanto sente que a empurram no balanço, jogo aliás, que adora; e o próprio Jozef, que também está acostumado com as elaborações de teorias, como a  do "problema da dispersão e a lei de Andronikos relativa à árvore de Dioscórides". 

"- Somos mesmo esquisitos: a escuridão cega-nos e a luz também. Os olhos fechados deixam-nos sozinhos. Os olhos abertos mandam-nos para a prisão."

O que  é ainda mais interessante é descobrirmos que toda essa história tem como pano de fundo, um episódio real na vida dos avós do autor, que realmente esconderam um pintor judeu, que fugia dos nazis,  debaixo de seu lava-loiças. É a partir desse episódio, do ato de coragem de seus avós, que o Afonso, que pouco sabia sobre o pintos eslovaco, começa a desenhar e a pintar a vida de Sors nesse belo romance repleto ainda de muito movimento e tragédias familiares.

O livro é um exercício delicioso de imaginação, totalmente imagético e repleto de metáforas, conceitos e certezas inabaláveis, mas que podemos vir a descobrir que até mesmo as teorias mais arraigadas podem cair por terra. Não é um livro que vai defender essa ou aquela teoria ou verdade, mas sim um poético livro de formação, onde o autor deixa claro o quanto acredita no verdadeiro poder transformador da literatura.
"Só sobrevivemos numa corda muito fina estendida sobre um abismo. Todo o ser vivo é um equilibrista. Todo o ser vivo é um mau equilibrista. Acabará sempre por cair."


♥♥♥♥




Título: O Pintor Debaixo do Lava-Loiças
Autor: Afonso Cruz
Editora: Caminho
N.º de páginas: 175
ISBN: 978-972-21-2418-8
Ano de publicação: 2011


6 comentários:

lualimaverde disse...

Paty, esse é daqueles autores que eu tenho certeza que vou gostar. Pena que não há quase nada aqui dele, não? Mas estou pensando em comprar depois importado mesmo, se não sair muito caro. As ilustrações ficaram legais no e-reader?
Beijinho!

Michelle disse...

Que delícia quando a gente consegue finalmente ler um autor há muito aguardado e descobre que a espera valeu a pena, né?
Beijo!

Livros Incríveis disse...

Eu talvez nunca leria, embora o nome de Afonso Cruz, me instiga. Mas depois de tudo isso que falou, penso sinceramente em não perder mais tempo. O livro parece ser bem delicioso. Que bom que tanto vc quis e consegui. Mais ainda, amou!
beijos, linda!

Tati disse...

Cada vez amo mais o Afonso, só de ouvir os comentários e o amor com ele.
O primeiro livro que li também só veio confirmar que será a grande descoberta desse 2014 que está só começando!
Beijo!

Flávia disse...

De tantas maravilhas que ouvi vocês falarem sobre esse autor fiquei com muita vontade de conhecer sua escrita. Qual não foi minha surpresa ao descobrir apenas um único livro dele "Os livros que devoraram meu pai". Eu amei. Vou tentar comprar esse que você indicou.

Beijos!

Patrícia Di Carlo disse...

Meninas, a escrita dele é fantástica e deixa a gente com gostinho de quero mais. Pena que apenas uma obra dele tenha sido publicada aqui no Brasil, que é justamente o que a Lua e a Flávia falaram, "Os Livros que devoraram meu pai". Espero que esse ano as editoras brasileiras consigam enxergar o filão que estão perdendo!!

Xerinhos, lindezas!