6 de jul de 2013

Resenha: Balzac e a costureirinha chinesa - Dai Sijie




Tive acesso às letras do Dai Sijie através do filme Balzac e a costureirinha chinesa, que ele mesmo roteirizou e que me fez suspirar com tanta poesia e amor. Adorei as locações do filme e toda a poesia colocada no amor aos livros, na amizade e no romance da tríade de amigos. Então, nada mais natural, que ter ficado felicíssima ao descobrir que o filme fora baseado no livro do próprio Dai Sijie, e que, ainda por cima, tem um certo cunho autobiográfico, já que o mesmo foi enviado para a reeducação nos campos chineses no período de 1971 à 1974, e depois, após ter ganho uma bolsa de estudos na França, é que fixou residência no país.

Balzac e a costureirinha chinesa, foi seu primeiro romance, publicado em 2000 e teve uma ascensão meteórica e que o levou a ganhar, no mesmo ano,o prestigiadíssimo prêmio francês, o Goncourt. Foi após esse sucesso que Dai Sijie, resolveu levar às telas o seu romance, claro, com algumas modificações, que se concentraram mais no foco: enquanto no filme o foco é o triângulo amoroso dos dois amigos e a Costureirinha, no livro vemos o valor da amizade e o amor aos livros, que são, para os três, libertadores.

O que é a reeducação? Na China vermelha, no fim de 68, o Grande Timoneiro da Revolução, o presidente Mao, lançou um dia uma campanha que iria mudar profundamente o país. As universidades foram fechadas, e “os jovens intelectuais”, quer dizer, os secundaristas, foram mandados ao campo para serem reeducados por camponeses pobres”

A história tem como pano de fundo a China maoísta, do fim dos anos 60, no dado momento em que o ditador Mao Tsé Tung instala a Revolução Cultural, tendo como base o fechamento das universidades, a proibição de livros não autorizados, ou mais claramente, o cânone Ocidental, e o envio de jovens burgueses aos campos para trabalhos forçados; no entanto, em momento algum, sentimos no romance algo como panfletagem política contra o totalitarismo.

Assim como o próprio Dai, o narrador e seu amigo Luo, ambos com 18 e 17 anos, respectivamente, são enviados à montanha da Fenix Celestial, aos cuidados do chefe local, para fazerem sua reeducação. A rotina dos garotos é dura e extenuante, são forçados a trabalharem nas minas de carvão, lavoura e carregando baldes enormes com estrume animal e muitas vezes humanos. 

Mas é esse choque civilizatório que encadeia o livro de maneira sublime. A "pose" civilizatória dos meninos é de um contraste gritante com os preconceitos dos camponeses, gerados pela ignorância, e com isso a dupla se depara com algumas situações conflitantes, como a da chegada a aldeia; no momento que o chefe vê um dos meninos com um violino e decide queimar o "brinquedo burguês". E é aí que Luo, o mais extrovertido da dupla, propõe que o narrador toque uma sonata de Mozart, que evidentemente era proibida pela Revolução. Mas a esperteza de Luo os livram da agonia. Indagado sobre o título da música, ele de imediato responde: "Mozart pensa no presidente Mao". E essa explicação é suficiente para que a censura dê lugar a aplausos, e nos mostre o quanto é necessária  a astúcia  para garantir a sobrevivência nas montanhas. E essa não é a única situação em que a dupla usará da astúcia para garantirem o sucesso de seus planos.

Devido ao talento de Luo para traduzir aos camponeses as histórias de filmes que conhecia, o chefe da aldeia determina que eles deverão assistir às eventuais sessões do cinema da cidade mais próxima, a fim de assistir às produções oficiais do regime e recontá-las à aldeia. E é aqui que percebemos a verdadeira cartada do autor! A  oportunidade que os garotos têm de irem à cidade assistirem aos filmes e contá-los na aldeia é uma atividade que os livra de obrigações braçais.

 E vendo a literatura como mote de superação, há vários momentos em que a arte, literalmente, salva as personagens. Não há como domar, censurar e ou punir a arte, ela independe de concepções políticas, de ordem, lugar e ou espaço tempo, a arte é intrínseca ao sentir e saber do ser humano. 

No entanto, é quando conhecem a Costureirinha e reencontram um amigo de escola que a história da dupla toma um outro caminho. Eles descobrem que Quatro olhos, tem uma valise cheia de livros, mas que a covardia e o egoísmo do garoto não permite que ele divida o "ouro" com os amigos. Nessa valise está contida boa parte dos cânones literários do Ocidente como livros de Flaubert, Baudelaire, Dostoievski, Dickens, Dumas, Balzac e tantos outros. 

Depois de muito tentarem e após uma troca de favores, Quatro olhos decide emprestar aos garotos um livro e  eles se vêm envolvidos com Úrsula Mirouët, de Balzac, que abrirá seus horizontes para além da fogueira inquisitória do regime maoísta. 

Até aquele encontro roubado com Jean-Christophe, minha pobre cabeça educada e reeducada, simplesmente ignorava que se pudesse lutar sozinho contra o mundo inteiro. O flerte se transformou em grande amor. Até mesmo a ênfase excessiva à qual o autor havia sucumbido não me parecia nociva à beleza da obra. Sentia-me literalmente devorado pelo fluxo poderoso de centenas de páginas. Para mim, era o livro sonhado: ao término da leitura, nem a maldita vida, nem o maldito mundo poderiam ser como antes.”

Depois de algumas aventuras e acontecimentos, fascinados com a conquista da valise e com as narrativas de mistério, amor e desejo dos autores recém-descobertos, os amigos sentem brotar em seu íntimo uma incrível sensação de autonomia, que não tardam a compartilhar com os camponeses e principalmente com a Costureirinha, a filha de um alfaiate que atende aos habitantes de todas as aldeias da região, que fazem festa e cumprem todo um ritual com sua passagem pelos vilarejos.

A beleza da Costureirinha atrai imediatamente as atenções e a paixão dos garotos. E é nesse momento que  o olhar em direção ao mundo se modifica, alterando também o comportamento de todos os que, de alguma forma, se vêem tocados pela literatura emanada da valise. Mas as mudanças que a leitura provoca nos três  é, além de profunda, imprevisível, como Luo nos mostrará, pois em seu romance com a Costureirinha, ele  tenta firmemente “civilizar” a garota através da leitura das obras ocidentais, mas não se atenta ao real poder dessa influência, e jamais poderia supor o quão libertadora seria a experiência

No fim, vestiu teu maldito casaco, que aliás não lhe caiu mal, e me disse que o
contato das palavras de Balzac sobre sua pele lhe traria felicidade e
inteligência...”

E é na personagem da Costureirinha que vislumbrei a grande transformação apontada por Dai Sijie. Foi através dela, de sua mutação que podemos perceber, mais uma vez, o quanto a literatura pode proteger, como bem aponta a metáfora do casaco, onde o narrador transcreve, palavra por palavra do livro Úrsula Mirouët, afim de não perdê-lo; e como a arte e a literatura são fatores transformadores do ser humano.

pássaro que alçou vôo sem se dar um minuto de trégua”

Fazendo uma paralelo entre a Costureirinha e o próprio Balzac, percebemos que ambos se aproximam pelo ato de tecer, dela, e o ato de escrever do autor. E é curioso esse olhar, pois ainda vemos na personagem da mãe do Quatro olhos, outra mulher que tece e escreve: que tricota poemas, como forma de manter vivo o seu ofício e ainda se manter segura, usando as linhas como escudo.

Veja meu caso: tricoto
sem parar este pulôver azul, mas é só uma fachada. Na verdade, estou mentalmente compondo poemas enquanto faço tricô”

Percebemos que aqui não diferenças entre o ato de escrever e tecer, que escrever é o mesmo que tecer e vice e versa!E é ela a grande responsável por tecer habilmente essa história, pois liga-se e se desliga de Luo, assim como o faz com o narrador, com o próprio pai. Ela não se prende ao sentimentalismo, e, consequentemente, também não se prenderá a gratidão.

Com uma leveza absurda e uma linguagem simples, direta, quase como num roteiro cinematográfico, Dai Sijie nos apresenta um tecido dos mais finos e ricos, pespontados por uma linha poética tênue,  como a verdadeira seda chinesa, com tramas de crescimento pessoal, liberdade, amizade e arte tão bem tramados.


♥♥♥♥♥




Título: Balzac e a Costureirinha Chinesa
Autor: Dai Sijie 
Tradutora:  Vera Lúcia dos Reis
Editora: Alfaguara
Ano: 2000
Número de páginas: 164


7 comentários:

Michelle disse...

Preciso ler esse livro, Paty! O filme já achei adorável, e o foco mais voltado para o amor pelos livros deve tornar o texto ainda mais interessante.
beijo!

Patrícia Di Carlo disse...

Michelle, estranhei um pouco a escrita no início do livro, mas depois que percebi que o livro é muito mais rico do que aparenta eu simplesmente o acho bem melhor que o filme! Leia sim, tenho certeza de irá adorar tanto quanto eu! ;)

Xerinhos
Paty

Melissa Padilha disse...

Oi Paty, poxa não conhecia nem o livro e nem o livro ... caramba estou desinformada, mas parece realmente um história delicada.
Adorei e está anotado na agenda de querências !
bjos
Melissa

Tati disse...

Maravilhosa a sua resenha Paty!
Também não conhecia nem o filme nem o livro, comecei a conhecer depois de você falar e fiquei curiosíssima!
Se um dia me deparar com ele por aí, com certeza comprarei!
Beijo!

lulunettes disse...

Já devo ter comentando alguma vez nos seus vídeos, mas reforçando, estou desejando ler ‘Balzac e a costureirinha chinesa’. Ainda não assisti ao filme, então será uma dupla surpresa! Volto para comentar quando eu ler, ok?! ^^
Cheirinho, Patrícia!

lulunettes disse...

Voltei! Demorei, mas estou aqui ;)
Patrícia, muito boa suas impressões e os pontos que você destacou. Sobre Balzac e a Costureirinha Chinesa: não curti a narrativa, achei a escrita bem mecânica, o autor foge completamente da proposta e ainda duvido da veracidade do material histórico apresentado. Eu tenho outro livro dele, Em Uma Noite Sem Luar, que não vou pegar tão cedo, mas espero que seja no mínimo bom.
Bjs!

Cláudio disse...

Adorei o filme...
Vou tentar ler o livro!