3 de mai de 2013

Resenha: No meu peito não cabem pássaros - Nuno Camarneiro



“Jorge tem medo de encher a cabeça. Uma frase ouvida muitas vezes ao aos adultos inquietou-o, “a cabeça não chega para tudo”. Jorge espantou-se com medo de não ter mais onde pôr coisas de que gostava, nunca pensara na cabeça como um bolso e agora concluiu que as memórias são grandes e não ocupam muito espaço. A cada dia, a cada hora, há gente a entrar pelos olhos e pelos ouvidos, por todo lado há gente a encher cabeças com palavras e gestos. As pessoas não têm respeito pelas cabeças e por isso enchem-nas sem critério de coisas importantes e porcarias. O pior é que as cabeças não sabem distinguir o que interessa nem esquecer o que não querem. Para lá fica tudo amontado, tão cheio e sem arrumo que nada se encontra que sirva. (…) Assim, Jorge desenvolveu um sistema para ter as memórias fora da
cabeça (…) um único dia pode ser feito de um número enorme de coisas a lembrar (…) pelo sistema de Jorge estes dias são arquivados num objeto particular, um vaso pintado por exemplo. Cada cor pode ser uma pessoa, cada traço do desenho uma frase. (…) Os objetos da casa começaram a vestir-se com as recordações de Jorge. (…) Na noite de tempestade em que o pai chegou a casa com muitas horas de atraso, todo o medo que ele sentiu ficou na colcha bordada de seu quarto”

A literatura portuguesa sempre fez parte da minha vida, desde muito menina, e tem me acompanhado sempre, em todas as fases da minha vida. Mas de uns anos pra cá ela tem ganho um destaque casa vez maior na minha estante e na minha vida, pois autores como Inês Pedrosa e Patrícia Reis chegaram já se fazendo lugares cativos no meu coração.
Por isso que quando vi que a Editora LeYa tinha lançado por aqui uma coleção somente com autores portugueses contemporâneos, eu ensandeci!
Dos autores que foram lançados, a única conhecida é a Patrícia Reis, de quem já li Morder-te o coração.



Tem sido muito difícil me controlar e não meter os pés pelas mãos e me enfiar, inteira, numa jaca... rs
Mas assim que a oportunidade me sorriu, escolhi começar pelo título que mais tinha me tocado, que foi o maravilindo No meu peito não cabem pássaros, do simpático [sim, vi algumas entrevista com ele e ele é muito simpático] Nuno Camarneiro.

"Vai um pássaro a voar baixinho tia, é lindo e vai perdido a voar. Aqui não é o céu de pássaros. (...) Leve o pássaro para a rua, lá para onde puder voar. No meu peito não cabem pássaros."

No meu peito não cabem pássaros, é um romance de estreia excepcional! Um livro poético, sensível e que nos faz transitar tão bem pela realidade crua como a mais poética fantasia.
O romance nos apresenta três personagens distintos, Karl, Fernando e Jorge, que apesar das distâncias de idade e geográficas têm em comum a passagem de dois cometas pelas terra no ano de 1910 e que, enquanto o mundo se abalará por conta desse acontecimento, pessoas cometerão suicídio e o pânico por conta do medo do fim do mundo, esses três se mostrarão ainda mais sensíveis, e após 100 anos os veremos como gênios!

Nessa sua estreia, Camarneiro faz uma belíssima homenagem a 3 dos autores que considera como sendo os transformadores da sua própria vida: Karl, um imigrante em Nova York, limpador de vidros, vendedor de bíblias e que enfrenta tantos conflitos como outros empregos complicados é quem nos apresenta uma Nova York sem vida, num frenesi de trabalho, na falta de amigos, no vazio de estar completamente só. Em Karl, vemos a faceta do autor Franz Kafka, homenageado aqui com o empréstimo de um de seus personagens.

Fernando, tão jovem ainda, e já enfrenta a travessia do oceano para ganhar o mundo com suas letras e suas visões de mundos. Vai para Lisboa, onde morará com uma tia e após uma enfermidade, entenderá-se como realmente um poeta. E assim, Nuno rende homenagens ao poeta mor, Fernando Pessoa!

E Jorge, ainda uma criança, na Buenos Aires que nos é apresentada nos capítulos com as letras trocadas, que adora inventar coisas, métodos para guardar suas memórias e que descobre  mundos maravilhosos nos livros e que é também capaz de escrever histórias tantas vezes melhores do que as que lhe contava a avó Fanny! É com Jorge  que tive acesso as partes mais tocantes e singelas. E, como não poderia ser diferente, Jorge é a deliciosa, quase infantil homenagem à Jorge Luis Borges.

São três narradores, aparentemente isolados, mas que têm em comum a sensibilidade, a inquietude, o sentimento de inconformidade com o mundo e ainda mais consigo mesmo. As três narrativas se intercalam em capítulos curtíssimos, mas cheio de densidade, poesia, abstrações e introspecção. Nuno, com muita delicadeza procura, com base em biografias dos autores, relatar seus dias, e recria outros dias para eles, para preencher de vida poética e literária as lacunas de seus dias "em branco"!

No meu peito não cabem pássaros, é um romance extremamente bem escrito, arrebatador e que merece um ritmo de leitura adequado, uma entrega total, pois nos leva por entre os caminhos de nós mesmos.




Título: No Meu Peito Não Cabem Pássaros
Autor: Nuno Camarneiro
Editora: Leya
Páginas: 192




6 comentários:

Tati disse...

Só aumentou minha vontade de ler Paty! Ainda mais sabendo que é uma homenagem a três dos meus autores favoritos na vida <3
Adoro quando um escritor consegue fazer isso de forma original, como parece ser o caso do Nuno. Nem vou falar que to aqui na estante virtual olhando os preços ai ai ai rsrs!
Beijos,
Tati

Victoria disse...

Olá.
'No meu peito não cabem pássaros' parece ser um livro muito interessante! Narrativas onde mais de um ponto de vista é abordado me encantam muito, além de ele ser sobre grandes nomes. Espero poder ler em breve :)
Beijos.

Olá... Achei bem legal a história do livro, ainda mais porque é sobre um tema que nos envolve, pois fala de família, morte e a tentativa de fazer tudo certo. Além disso, fiquei curiosa sobre essa caixa que ela recebe. Espero poder ler em breve :)
Beijo.

http://pontodasletrasblog.blogspot.com.br/

Patrícia Di Carlo disse...

Ah, Tati, o Nuno conseguiu falar dos dias de cada um dos três sem pedantismos nem vulgaridade, preencheu de forma tão linda os vagos que me foi impossível não me apaixonar por sua escrita. ;o)
Quero o outro dele pra ontem, o que ganhou o premio LeYa de 2012... rs

E eu tendo que me concentrar na minha crise de abstinência de compras... Ômôpai... rs

Xerinho, lindeza!

Patrícia Di Carlo disse...

Olá, Vitoria, seja bem vinda!! ;)
Uma narrativa muito leve e densa a dos três que acabam nos conduzindo como se fossem apenas um, pois há momentos que não sabemos mais onde está um, pra onde foi o outro e como estamos nos três! ;o)

Também espero que possa lê-lo logo...

Agora, essa sua segunda parte do comentário... não entendi... rs

Xerinhos

Michelle Henriques disse...

Pati, eu já estava mega ansiosa para ler algo dessa coleção, depois da sua resenha então...
Se eu não tivesse estourado meu cartão, certeza que comprava agora mesmo!
Beijão!

Patrícia Di Carlo disse...

Ainda bem que agora você poderá matar a sua vontade e ficar encantada tanto quanto eu, Michelle!! ;oD

Xerinhos