15 de abr de 2013

Resenha: Primavera num espelho partido - Mario Benedetti



"Apesar de tudo, o corpo é mais adaptável do que o espírito. O corpo é o primeiro a se acostumar aos novos horários, a suas novas posturas, ao novo ritmo de suas necessidades, a seus novos cansaços, a seus novos descansos, a seu novo fazer e a seu novo não fazer."

Quando eu era criança e já conseguia perceber com um pouco mais de discernimento a realidade das coisas, eu ficava em êxtase quando minha mãe nos reunia à mesa do jantar para nos comunicar que nos mudaríamos mais uma vez e em breve, que o papai tinha sido novamente transferido e que só esperaríamos as férias chegarem, o que geralmente era coisa de uns 30 a 20 dias antes da mudança. Mas com o passar do tempo e muitas despedidas depois, esse êxtase foi se transformando, pouco a pouco, na consciência de que o adeus muitas vezes é para sempre e que ele dói tanto quanto se sentir sem raízes.

Assim que comecei a ler Primavera num espelho partido, do uruguaio Mario Benedetti, soube imediatamente que não sairia imune dele. Ainda mais depois de ler o capítulo intitulado Don Rafael (Derrota e rota).
O essencial é adaptar-se. (...)Nem todos tem um exílio próprio. A mim quiseram empurrar um alheio. tentativa inútil. Transformei-o em meu. Como foi? Isso não importa. Não é um segredo nem uma revelação. Eu diria que é preciso começar apoderando-se das ruas. Das esquinas. Do céu. Dos cafés. Do sol, e o que é mais importante, da sombra. É somente quando alguém chega a perceber que uma rua não lhe é estrangeira que a rua pára de vê-lo como um estranho. E assim com todo o resto.

 E sim, durante muitos anos considerei-me uma exilada, mesmo sem saber do termo e muito menos seus significados...

Mario Benedetti, poeta, escritor e ensaísta uruguaio foi-me apresentado, como já citei aqui, pela Denise Mercedes do blog e vlog Meus Olhos Verdes, e com apenas dois livros lidos já tinha se tornado um dos meus queridos, agora posso afirmar que além de querido é um dos meus autores reconfortantes!

Em Primavera num espelho partido, romance de 1982 e lançado no Brasil somente em 2009, Benedetti nos narra uma história de saudades, exílios, amores, dramas, sonhos, separações, culpas e uma boa dose de política. É também uma história com tons autobiográficos, já que, como um dos personagens de sua ficção, o escritor também esteve, por 12 anos, exilado em outros países, entre eles Peru, Argentina, Cuba e Espanha, devido a sua posição e opiniões políticas no período da Ditadura Uruguaia.

O romance é construído a partir de seis vozes narrativas que,  em pequenos capítulos,  revelam, aos poucos,  a história e seus personagens. Santiago, o homem culto e ativista politico, que foi preso e torturado e já está preso há mais de 4 anos. Graciela, sua mulher, também tem de exilar-se com a filha, Beatriz, e o sogro, Dom Rafael e que, para sobreviver, trabalha como secretária tentando levar adiante sua vida da melhor maneira possível. Os capítulos são apresentados em cinco perspectivas diferentes: as cartas que Santiago escreve à sua mulher da prisão. O cotidiano de Graciela e a sua labuta para criar a filha do casal. O monólogo de Dom Rafael. A perspectiva de Rolando Austero, amigo de Santiago e da família. As redações da pequena Beatriz. E os capítulos em  que, sem ter relação direta com a história, narram em primeira pessoa as experiências do próprio Benedetti no exílio.

Apesar de ter formado com Santiago um casal perfeito, Garciela percebe que o tempo e a distância os afastam, e que ela, de tanto viver longe, já não precisa mais dele. Em contrapartida, no claustro é como se o tempo tivesse parado para Santiago, que cultiva o sonho de, ao sair da prisão, retomar sua vida, encontrar as pessoas, ou ao menos os sentimentos, do mesmo jeito que as deixara ao ser preso.

O título ainda carrega a força política, pois refere-se à Ode a primavera, de Pablo Neruda, poema cuja metáfora se refere à justiça social; além de uma bela justificativa poética, que veremos nas indagações de Santiago ao final do romance, e também a vemos quando Don Rafael nos fala dela, ao lembrar seu relacionamento com a esposa já falecida:

“Quando tínhamos apenas dois anos de casados, em um dos seus infreqüentes impulsos de confidência, que eram como uma concessão que nos fazia às vezes (a ela e a mim), disse que bom seria morrer ouvindo alguma das Quatro Estações, de Vivaldi. E muitos anos depois, exatamente em dezessete de junho de mil novecentos e cinqüenta e oito, quando estava lendo e de repente ficou imóvel para sempre, no rádio (não era sequer um toca-discos) estava tocando a Primavera. Santiago ficou sabendo e talvez por isso essa palavra, primavera, tenha se ligado para sempre à sua vida. É como o seu termômetro, seu padrão, sua norma”…

De todos os personagens do livro Santiago é o mais otimista e crédulo, acredita em seus sonhos e se mantém vivo e incorruptível por ele. É a personagem que mais tive vontade de colocar no colo e afagar. Se bem que sua filha, Beatriz, é o melhor contrapeso que um escritor poderia ter utilizado. Nela podemos ver a perplexidade de uma criança atenta, inteligente e que questiona, racionaliza, mesmo quando se perde e confunde com a linguagem, como no episódio que confunde "poluição" com "polução", é realmente muito bom, uma dose extra e fina de humor! E o que dizer dela quando fala de liberdade:

“Liberdade quer dizer muitas coisas. Por exemplo, se você não está presa se diz que está em liberdade. Mas meu pai está preso e no entanto está em Liberdade, pois é assim que se chama a prisão onde está há muitos anos… Meu pai é um preso, mas não porque tenha matado ou roubado ou chegado tarde à escola. Graciela diz que meu pai está em Liberdade, ou seja, preso, por suas idéias. Parece que meu pai era famoso por suas idéias. Eu também tenho idéias, às vezes, mas ainda não sou famosa. Por isso não estou em Liberdade, ou seja, não estou presa… De forma que liberdade é uma palavra enorme. Graciela diz que ser um preso político como meu pai não é nenhuma vergonha. Que é quase um orgulho. Por que quase? É orgulho ou é vergonha? Gostaria que eu dissesse que é quase vergonha? Estou orgulhosa, não quase orgulhosa, de meu pai, porque teve muitíssimas idéias, tantas e tantas que foi preso por causa delas. Acho que agora meu pai vai continuar tendo idéias, idéias espetaculares, mas é quase certo que não fale sobre elas com ninguém, porque se falar, quando sair da Liberdade para viver em liberdade, podem fechá-lo outra vez na Liberdade. Estão vendo como é enorme?”.

Não há como mensurar a dor que cada tipo de exílio pode causar, muito menos apagar as cicatrizes por eles deixadas, mas Benedetti ainda nos traz mais uma questão que é a do "desexílio", palavra inventada por ele para se referir ao processo de readaptação dos exilados ao voltar para casa. Como será o fim desse inverno, será que Santiago terá razão?

…depois desses cinco anos de inverno ninguém vai me roubar a primavera…
A primavera é como um espelho mas o meu está com a ponta quebrada/era inevitável não ia sair inteirinho desse bem nutrido qüinqüênio/mas apesar da ponta quebrada o espelho serve a primavera serve…
Acredito que o escritor Julián Fucks, ao falar de si mesmo, fecha com chave de ouro a questão levantada por Benedetti e também às que ainda teimam em bailar em meu coração:

“EU ERA UM MENINO, MEUS PAIS ESTAVAM CANSADOS DO EXÍLIO, QUERIAM RECOBRAR SEU PAÍS: TIVE QUE ME INVENTAR ARGENTINO. ME LIVREI DAS ROUPAS FESTIVAS, DA MOLEZA DA LÍNGUA, DEIXEI O CABELO MAIS COMPRIDO. NÃO ADIANTOU: PARA ELES, FUI SEMPRE UM ARGENTINO PRECÁRIO, UM BRASILEIRO ENRUSTIDO. QUANDO VOLTEI, ESTAVA FELIZ. RECUPERARIA MEU EU ANTIGO. TRISTE ILUSÃO: FUI TAMBÉM UM BRASILEIRO FALSO. ALGUÉM, TALVEZ EU MESMO, SEMPRE ME QUIS O OUTRO QUE EU JAMAIS SERIA.”



Primavera num espelo partido
Mario Benedetti
Trad.: Eliana Aguiar
Alfaguara
224 págs.



Esta resenha também faz parte do Desafio Literário 2013, cujo tema é referente ao mês de abril: Estações 
do ano no título da obra.



5 comentários:

Marcia Cogitare disse...

Nossa Paty,essa tua resenha me deixou maluca pra ler este título e conhecer este autor.

Hug lindona

Taiane Maria Bonita disse...

Nossa adorei a história do livo, fiquei com muita vontade de ler. Não conhecia o autor, grata pela apresentação... hehehe

E a sua resenha está ótima, uma resenha com conteúdo! Parabéns!

Abraço!

www.gavetaliteraria.com.br

Patrícia Di Carlo disse...

Márcia, é pra ficar maluca mesmo pra lê-lo e depois pra querer ler tudo o mais dele!! Blaster!! :o)

Xêros
Paty

Patrícia Di Carlo disse...

Olá, Taiane!
Seja muito bem vinda, viu! ;o)
E Mario Benedetti é um amor novo pra mim também, e eu super recomendo mesmo, acho que todo mundo deve lê-lo sempre!
Obrigada, frô, e volte sempre viu!

Xerinhos
Paty

Larissa Bohnenberger disse...

Olá Patrícia!
Nossa, essa resenha é daquelas que atiçam. Nunca li nada do Benedetti, mas ele já está na minha lista de futuras leituras graças, também, à Denise, que me deixou doidinha para lê-lo. Não faço ideia de por qual livro começar, mas devo admitir que, pelo que tenho lido a respeito, Primavera num Espelho Partido é um ótimo candidato.

Bjs, Larissa
http://oelementofogo.blogspot.com.br/