16 de mar de 2013

Entre pontos e vírgulas #5: O sentido de um fim - Julian Barnes



Minha memória não é lá muito confiável, aliás, nunca foi,  pois desde mais nova não podia contar com ela devido à sua seletividade. Sim, minha memória era atrevida e totalmente seletiva, e, definitivamente, de uns anos pra cá ela já não é mais a mesma.  Mas justamente por não querer rememorar alguns fatos ou por não querer de volta algumas sensações é que não me doei inteira à leitura desse livro, muito bom, do qual ouvira falar no ano passado através de um post da Juliana  no seu O batom de Clarice... Lembro-me, com efeito, de ter achado muito interessante o mote, e de que gostaria de lê-lo mais pra frente, tanto que fiz  anotações sobre ele em meu caderninho de querências.

Então a chance surgiu, com a escolha dele para o livro de março para o fórum Entre Pontos e Vírgulas, e eu logo pensei, caramba, será que já é a hora? Será que consigo me entregar? Mas não, não consegui a entrega necessária, mas saboreei a leitura e extrai muito dela. Mesmo com o corpo se defendendo, a memória não me atraiçoou e acabei, meio que um tanto a contragosto, enveredando pelos caminhos tortuosos de uma certa catarse.

Julian Barbes, escritor inglês e bastante conceituado no cenário da literatura contemporânea, ganhou  o prêmio Man Booker Prize em 2011 com O Sentido de um fim. O livro tem como mote alguns antagonismos essenciais ao ser humano, como vida e morte, memória e identidade. Fala do conhecer a si mesmo, aos outros e o mundo a partir da investigação de alguns indícios que o levem [ao narrador e, consecutivamente, ao leitor] à resolução de um enigma, que é a recuperação de uma série de acontecimentos passados que tem repercutido no presente.

O livro é narrado em primeira pessoa e dividido em duas partes. Na primeira, Antony Webster, o narrador, no alto de seus 60 e poucos anos, divorciado, aposentado, pai de uma filha e com netos, e que mantém uma saudável relação de amizade com sua ex-mulher, de vida estabilizada e pacata, recebe como herança uma pequena quantia em dinheiro, alguns papéis e um diário escrito por Adrian Finn, um de seus amigos mais íntimos e antigo colega de escola, que, aos 22 anos, comete suicídio.
Adrian tinha uma inteligência brilhante, uma clareza de pensamento que impressionava, era filosófico e nada pedante, bem como o próprio livro! Além disso, antes de sua morte, ele namorava com Verônica, que foi a primeira namorada de Tony.

A herança é enviada à Tony pelos advogados da mãe de Verônica, falecida há pouco tempo e que determinou, em testamento que fosse entregue a quantia de 500 libras, o diário e alguns papéis de Adrian e com eles um bilhete escrito por ela. Vivendo sua vida pacata, Tony acaba por sofrer com o impacto desse legado que lhe chega "despropositadamente" de seu passado.
Começa então sua investigação de um passado remoto que ainda repercute no presente, através dos meandros de sua memória.

"...o que você acaba lembrando nem sempre é a mesma coisa que você viu." [p. 9]

Relembra, então, não linearmente, mas  como alguns fluxos de consciência,  da sua adolescência, entre os amigos e colegas de escola, a filosofia, as transgressões naturais da idade, bem como suas arrogâncias e arroubos. Da juventude, já inserido no contexto da faculdade, surge o primeiro relacionamento, a namorada bonita, inteligente, misteriosa e de personalidade difícil, Verônica, e, com ela, seus impulsos e obsessões sexuais são todos frustrados, e aqui devemos nos lembrar de que eram os anos 60 ainda, a liberdade dos 70 ainda estava por vir! ;o) Sente ainda, de forma latente os ressentimentos de classe com relação à Verônica, já que ela é mais rica do que ele e pela forma humilhante e desdenhosa com que ela e sua família o trata. E relembra dos esparsos encontros com seus antigos amigos: Colin, Alex e Adrian, cuja morte deverá ser re-significada. 

“História é aquela certeza fabricada no instante em que as imperfeições da memória se encontram com as falhas de documentação”


E é nessa questão do suicídio que me lembrei muito de um outro livro que li há alguns anos, O Mito de Sísifo, de Albert Camus, que fala sobre o absurdo, da necessidade ou não do suicídio, e de outro antagonismo referente a ele: coragem e covardia.

A partir do momento que Antony decide se lançar em busca dessas memórias ele também se lança numa busca de si mesmo e de boa parte de sua identidade. O que se dá mais precisamente na segunda parte do livro.

No entanto, desde o início da obra, me debati, e acredito que todos também se debatam, com a resolução do enigma real, que é o de que a memória está longe de ser exata e precisa, mas sim sujeita a variações como toda a experiência.
Esse é um livro que se lê com facilidade, apesar de tantos temas "pesados", e ou por conta de seu tema filosófico. Não há necessidade de pausas durante a leitura para que possamos refletir de forma mais direta acerca de suas questões e teorias. Temos, enfim, um narrador, de certa forma, medíocre nos conduzindo e a si próprio, como um terapeuta, pelos meandros de nossa própria memória, identidade e construção de nosso todo!

Gostei da narrativa curta, direta, até certo ponto sutil, mas acredito que teria gostado ainda mais se não tivesse me imposto um certo distanciamento do mesmo simplesmente por auto-defesa!




E se preferir, veja aí o vídeo!! ;oD

“Lembro de um período do final da adolescência em que minha mente ficava embriagada com imagens de aventuras. É assim que vai ser quando eu crescer. Eu vou lá, vou fazer isso, vou descobrir aquilo, vou amá-la, depois ela, ela e ela. Vou viver como as pessoas vivem e sempre viveram nos romances. Em quais eu não tinha certeza, só que paixão e perigo, êxtase e desespero (mas depois mais êxtase) estavam à minha espera. Entretanto… quem foi que disse aquilo sobre ‘a pequenez da vida que a arte exagera’? Houve um momento quando estava me aproximando dos trinta anos em que eu admiti que meu amor por aventuras já tinha acabado há muito tempo. Eu jamais iria fazer as coisas que havia sonhado na adolescência. Em vez disso, eu aparava a grama, tirava férias, tinha a minha vida.
Mas o tempo… como o tempo primeiro nos prende e depois nos confunde. Nós achamos que estávamos sendo maduros quando só estávamos sendo prudentes. Nós imaginamos que estávamos sendo responsáveis, mas estávamos sendo apenas covardes. O que chamamos de realismo era apenas uma forma de evitar as coisas em vez de encará-las. O tempo… nos dá tempo suficiente para que nossas decisões mais fundamentadas pareçam hesitações, nossas certezas, meros caprichos.”



PS: Me esqueci de falar no vídeo e ia cometendo o mesmo erro por aqui!
Adorei a escolha dos dandelions [Dente-de-leão] para a capa, nos mostrando, de cara, a fugacidade e leveza da memória. Bom como a faixa mais escura, nos lembrando as fotocópias que Tony acaba recebendo! 



2 comentários:

Melissa disse...

Oi Patricia !
Fantástica a resenha, eu confesso que comecei a lê-lo mas a leitura não fluiu bem e acabei desistindo ou protelando um pouco a leitura mas assídua do livro.
A memória na verdade é feita do que nós vimos e cada tem a sua verdade, ou pelo menos encara o que vê de acordo com seus preconceitos, limites e visão particular do mundo real (ou o que pelo menos nos parece real), por isso as verdades são relativas e a cada um possui a sua. Cada um vê do jeito que quer, e cada um conta uma história diferente sobre o mesmo fato.
A verdade é que eu acho que estamos cegos, e essa cegueira acionada de uma forma inconsciente para fatos que nos contrariam ou simplesmente não podem ser processados por nós naquele momento. Queria eu ter a habilidade de desativar isso em mim, mas acho que se destruímos paredes por outro lado construímos outras e são reflexões como esse livro que nos propõe a desconstrução e construção de novas paredes, mas mesmo assim abrindo novos caminhos.
Adorei a resenha.
Abraços
Melissa
decoisasporai.blogspot.com.br

Patrícia Di Carlo disse...

Melissa, adorei seu comentário!!
E eu sempre disse e falei disso na resenha, mas a nossa memória é sim seletiva, ou melhor, fazemos dela esse agente seletivo, porque só queremos nos lembrar, efetivamente do que seja mais interessante, do que não é, floreamos e criamos outras nuances que nos traga também um pouco mais de dignidade para justificar e diminuir nossas próprias culpas diante de erros, tantas vezes grotescos. ;oD

Obrigada, pela participação, frô!! ;)

Xerinhos
Paty