23 de abr de 2010

Absinto-me


Ando lentamente pelas dobras do dia e não entendo onde meus passos me levam. Na verdade tenho urgência em viver,  mas não sei ao certo se o tenho feito da maneira correta. Há uma maneira exata?
E eu, sou uma pessoa correta? Também não sei. Não me arrisco a falar de meu comportamento. Tanta coisa acontece, aconteceu e virá a acontecer, tantas marcas, cicatrizes fundas, rasas, na pele, na memória, e tanto desentendimento de tudo. Não queria desentender de mim mesma, mas em dias assim, que desentendo os outros, não há como deixar de pensar em quanto de mim pode estar errado.

Eu não possuo meu corpo

Eu não possuo meu corpo - como posso eu possuir com ele?
Eu não possuo minha alma - como posso eu possuir com ela?
Não compreendo meu espírito - como através dele compreender?

Não possuímos nem o corpo, nem uma verdade - nem sequer uma ilusão. Somos fantasmas de mentiras, sombras de ilusões, e a nossa vida é oca por fora e por dentro.
Conhece alguém as fronteiras à sua alma, para que possa dizer - eu sou eu?

Mas sei que o que sinto, sinto-o eu.

Quando outrem possui esse corpo, possui nele o mesmo que eu? Não. Possui outra sensação.

Possuímos nós alguma coisa? Se nós não sabemos o que somos, como sabemos nós o que possuímos?

Se do que comes, dissesses, "eu possuo isto", eu compreendia-te. Porque sem dúvida o que comes, tu o incluis em ti, tu o transformas em matéria tua, tu o sentes entrar em ti e pertencer-te. Mas do que comes não falas tu de "posse".
A que chamas tu possuir?   
 
 
Fernando Pessoa

Desconheço a autoria da imagem.

4 comentários:

Elisa Zavam disse...

"Há uma maneira exata?"

Creio que não. Existe isso mesmo, você, apenas isso e isso só não batsa, essa evolução e tentativa de aceitação é coisas da vida, tamb sinto. Olha, se serve de apoio me sinto perdida mais vezes que encontrada (rsrs). Bom dia Moça!! ;)

Elisa Zavam disse...

[...] Não me distancio muito de mim
E quando saio não vou longe
fico sempre por perto
Depende da hora e da cor
Depende da hora,
Da hora, da cor e do cheiro
Cada cor tem o seu cheiro
cada hora lança sua dor
E dessa insustentavel leveza do ser
eu gosto mesmo é de vida real [...]

António disse...

Há dias em que nos sentimos assim:
desorientados, em nada interessados.
O melhor é fechar os olhos,
olhar para dentro de nós e acreditarmos!

Um beijinho
António

Imagem e Poesia disse...

Creio que, na verdade, não somos donos de nada mesmo.
Beijinhos
Ceiça