30 de ago de 2009

Lisérgica Chuva



Em um dia limpo, daqueles
nascidos para crianças irem à praia,
enquanto brincava com pedaços de céu
que brilhavam nas poças deixadas
pela chuva do dia anterior,
senti dentro de mim, como uma pluma,
um segundo “eu”,
um eu paralelo, bem mais puro;

Tal qual estátua, alisada pelo tempo,
observava-me na água e cismava
no quanto envelheci esse ano. Como se
uma camada espessa de ar escapasse
de sob minha pele.
Meu rosto fino e inexpressivo, como
Um trapo de linho, não mais
Semeava lágrima.

Viajo nos rastros deixados...

Miro as cicatrizes que cobrem
com o grito rosáceo da pele e
penso que, talvez hoje, consiga perfurar
a obscuridade e as passagens entupidas
para, afinal, chegar ao meu ouro;
pois sou uma única mulher, mesmo que
mergulhada e perdida em milhares,
uma idêntica mulher.

Continuo sonhando meu sonho
decente e pacífico, mesmo
que pareça infernal, mesmo que
seja real e pareça voltar em mais um
grito cicatrizado de meus
milhares de eus...

Sob o obscuro das água empossadas
nasceu o futuro em face de dia...
Poderá ser um bom dia,
assim o quero...
Só necessito, com urgência,
tratá-lo [em mim]...



Patrícia Gomes
Imagem: El Scorcha

2 comentários:

Cris Linardi disse...

Adorei, adorei, adorei.... Profundo, intenso, forte. Parabéns!

Patrícia Gomes disse...

Poxa, Cris, fico feliz que estejas por esse meu cantinho também!! ;oD
Seja sempre muito bem vinda, viu!
Xerinhos, frô!