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8 de mar. de 2013

Resenha: O Tempo Entre Costuras - María Dueñas


Não sei vocês, mas quanto a mim, sempre que me permito voltar depois de um longo período mergulhada em algo denso, sempre quero um pouco de leveza, um ar morno, tranquilo que me faça equilibrar-me e continuar leve para novos e profundos mergulhos. E, com isso, eu quero dizer que sou assim também com relação aos filmes, músicas e claro, sempre, com os livros.

Depois de tantas leituras que mexeram tanto com meu emocional, tudo o que eu precisava era de um romance leve, cativante e totalmente descompromissado pra me trazer de volta ao eixo. Pensei num bom chick lit, em algum dos romances da Jane Austen, cogitei outros autores, mas acabei escolhendo mais uma espanhola pra me devolver ao centro.

A primeira vez que vi O Tempo entre costuras, da espanhola María Dueñas, eu comprei logo, mas depois é que vi que tinha errado o título, confundido com outro que tinham me indicado, e do qual nem lembro mais, pra ser sincera...  Mas enfim, agradeço a quem for de direito por todo essa trapalhada! O tempo entre costuras foi uma surpresa deliciosa em todos os sentidos!

É um romance que é um misto de biografia, história,ficção, fatos reais, suspense, aventura e drama que fascina e nos deixa completamente agarradas à leitura que flui de uma forma simples, direta, suave, esclarecedora e poética; e é tão completo nosso envolvimento com as personagens que lemos num piscar de olhos, mesmo sem querer, as 470 páginas do livro.


"Uma máquina de escrever detonou meu destino. Foi uma Hispano-Olivetti, e dela me separou durante semanas o vidro de uma vitrina. Visto hoje, do parapeito dos anos passados, é difícil acreditar que um simples objeto mecânico pudesse ter potencial suficiente para alterar o rumo de uma vida e dinamitar em quatro dias todos os planos traçados para sustentá-la. Pois assim foi, e nada pude fazer para impedir."


Narrado em primeira pessoa, quem nos conta sua própria história é Sira Quiroga, uma jovem costureira madrilenha, que aprendeu o ofício com a mãe, que a criou sozinha, trabalhando em um ateliê com certo prestígio em Madri. Jovem, vê seu destino se delineando à sua frente, de forma morna, mas segura, sem ímpetos, mas com carinho, devoção e suavidade. Até que a paixão avassaladora e que chega sem aviso prévio muda tudo, absolutamente tudo, em 4 dias! Por essa nova paixão Sira abandona tudo: a Madri de toda a sua infância, a vida simples, seu noivo e sua mãe, totalmente inconformada com as atitudes da filha.

E é nesse contexto, em busca de uma nova vida com mais paixão e dinheiro, que Sira nos apresenta Tânger, no Marrocos, até então protetorado espanhol, tendo como pano de fundo a Guerra civil espanhola que está prestes a eclodir. E é nesse ponto que o romance dá a guinada maior, bem como a própria vida de Sira, pois passamos a entender um pouco mais sobre a ditadura do generalíssimo Franco e de seu cunhadíssimo Serrano Suñer, das ligações nem sempre tão discretas entre os alemães e os espanhóis, que tramam, e que podemos acompanhar claramente, o surgimento da Segunda Guerra. O destino de Sira passa então, numa sucessão de acontecimentos, a se ver ligado a várias outros personagens históricos, inclusive ligados ao serviço de inteligência britânico.

Uma aventura que nos faz suspirar, que nos ensina e emociona, pois não fala só de política, conspirações e guerra, mas muito mais de amizade, amor, dedicação e evolução. Não se engane achando que o livro fica lento e ou que possa parecer tedioso por suas descrições, não, María Dueñas acertou na mão quando dosou todo esse cenário de assuntos e paisagens, transitando confortavelmente entre o exótico, o glamouroso, o miserável e o ilusório. Assim como o livro é um misto, as emoções que ele nos provoca também é um mix delicioso!

Mas além de tudo, e o melhor de tudo, é que O tempo entre costuras, é um livro que fala de como pessoas simples, comuns, acuadas e sem mais nenhuma perspectiva na vida, podem mudar, evoluir, mesmo que de uma forma impositiva a princípio, e assim se permitir ser uma peça chave pra a luta contra uma ditadura e contra a crescente evolução de um dos piores momentos da história mundial: o nazismo.


Entregue-se com tempo, carinho, disposição e um bom chocolate quente à leitura de O tempo entre costuras, tenho certeza de que não irá se arrepender, pois esse é um livro blaster! ;oD
E relevem a falta de jeito da "resenha", já que sabem que quando gosto muito não falo lá muita coisa coerente, né! ;oD







O Tempo Entre Costuras
Autor: Dueñas, María
Editora: Planeta do Brasil
Categoria: Literatura Estrangeira / Romance
Número de Paginas : 480



21 de fev. de 2013

Resenha: A Louca da casa - Rosa Monteiro

Travei conhecimento com nome de Rosa Monteiro em 2012, quando assisti a um vídeo da Juliana Gervason, d'O Batom de Clarice, e ele ficou ecoando em minha mente, até que pesquisando sobre ela cheguei a alguns títulos que me chamaram muito atenção, como A Louca da Casa, A Filha do Canibal, O rei Transparente entre outros. Mas foi depois que fiz esse vídeo,  e que a Denise Mercedes, do blog Meus Olhos Verdes, reforçou a minha vontade me deixando a dica pra começar pelo A Louca da casa. Segui seu conselho e nada mais providencial e mais acertado!

Rosa Monteiro, é uma escritora madrilenha que ainda hoje escreve para o jornal "El País" e tem mais de 20 livros publicados entre ficção e não-ficção. Sua escrita é gostosa, bem humorada, atraente,sedutora e me conquistou logo nos primeiros parágrafos do livro.  O livro A Louca da Casa é quase um caleidoscópio de gêneros, um mix muito bem feito de romance, autobiografia, ensaios, onde se mesclam harmonicamente literatura, escrita e a própria vida! O título “A louca da casa” é como Santa Teresa d´Ávila –  a grande mística da Igreja – chamava a imaginação. E não, não me atirem pedras alegando que já estou cometendo o maior spoiler do livro, pois ficamos sabendo disso assim que lemos a contracapa do mesmo!

O tema do livro é um dos mais caros aos escritores e aspirantes a escritores: de onde vem a imaginação que move o humano à escrita,  a criatividade que faz com que o escritor escreva histórias boas ou más. No entanto, não há nenhuma restrição aos leitores não escritores de apreciarem a obra e a discussão que Rosa nos oferece em seu A Louca da Casa, porque o bom leitor é aquele que também reflete sobre o que lê, ao menos é o que eu penso!

"Nós inventamos nossas lembranças, o que é o mesmo que dizer que inventamos a nós mesmos, porque nossa identidade reside na memória, no relato da nossa biografia. Portanto, poderíamos deduzir que os seres humanos são, acima de tudo, romancistas, autores de um romance único cuja escrita dura toda a existência e no qual assumimos o papel de protagonistas." [p.12]

Essa citação é a chave, ao menos foi pra mim, para entender com clareza o que Rosa quer fazer ao narrar três vezes um mesmo evento com finais e elementos que diferem, mas que também tem muito em comum. E é essa mescla de autobiografia e os muitos relatos curiosos sobre outros autores e como cada um deles lidou, a seu tempo, com o ato de escrever, com a vaidade, dinheiro, com o fracasso, preconceitos, sucesso, fama e a própria vida, que torna o livro ainda mais interessante, pois não temos a sensação de estarmos lendo um tratado tedioso sobre o poder da imaginação e a escrita, nem um relato meloso da vida da autora.

Além de todas essas curiosidades sobre diversos autores como, Goethe, Llosa, García Marquez, McCullers, Henry James, Kipling, Tolstói, Eliot, Capote e tantos outros, Rosa Monteiro nos lança suas muitas e interessantes teorias, como a de que "o pensamento racional e a consciência do eu destroçam a criatividade."[p. 46], ou ainda que é necessário não crescer demais para continuar escrevendo: "Para escrever, enfim, vale a pena continuar  sendo criança em alguma região de si mesmo." [p. 85], bem como o fato de ser romancista é saber que "dentro de nós somos muitos", sendo assim, para ela, o romance é como uma "esquizofrenia autorizada". 

Além de todas essas teorias, uma das que mais gostei é a defesa que ela faz do argumento de que as mulheres que fazem literatura escrevem para o gênero humano, não apenas para serem lidas por outras mulheres, derrubando por terra a existência e ou o termo de "Literatura de mulheres". E ainda nos lembra que a metade do gênero humano é composto de mulheres. Com isso, Rosa Monteiro assume seu feminismo – ou, como ela prefere, seu anti-sexismo – para criticar o machismo da cultura oficial. E o mesmo ela faz quando se vê questionada se prefere ser escritora ou jornalista, e acabada dando uma lavada com classe, já que o jornalismo é um gênero literário e seu melhor exemplo é Truman Capote, com seu A Sangue Frio!

Diante de tudo isso, não tive outra escolha a não ser ler o livro a passo de tartaruga, degustando e relendo muitas vezes algumas partes, mas sempre me atendo ao alerta da própria autora:

"Tudo o que conto neste livro sobre outros livros ou outras pessoas é verdade, quer dizer, responde a uma verdade oficial documentalmente verificável. Mas receio que não possa garantir o mesmo sobre o que se refere à minha própria vida. Porque toda autobiografia é ficcional e toda ficção, autobiográfica, como dizia Barthes." [p. 233]



Título: A Louca da casa
Título Original: la loca de la casa
Autora: Rosa Monteiro
Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman
Editora: Pocket Ouro [selo da Ediouro Publicações]